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segunda-feira, 20 de março de 2017

Neurodiversidade e personagens de RPG

Quase a totalidade dos meus personagens de RPG tem algum tipo de traço neurodivergente. Não é para ganhar pontos na ficha - estou interpretando um lobisomem que começou a história com a firme intenção de superar seus ferimentos* mentais e por isso não peguei os pontos de defeito, estou só fazendo pelo prazer da interpretação - e muitos sistemas nem preveem essas interações trocadas por pontos, e eu e outros players colocam isso na hstória do mesmo jeito. Pensando nos personagens que já fiz na vida, muitos deles tem algum elemento neurodivergente - ou como os neurotípicos costumam dizer, neuroatípicos.

Capacitismo e psicofobia é mato na nossa sociedade. Depois de uma vida sendo neurdiversa, sendo disgráfica e convivendo com crises depressivas, eu percebo isso de forma muito cotidiana (e reconhecendo meu absoluto privilégio comparado com pessoas que tem que lidar com coisas muito mais pesadas dentro desses elementos). Para mim, é natural que meus personagens sejam como eu sou. Do mesmo jeito que quero mesas de jogo onde existam mulheres e pessoas não binárias, que exista variedade étnica, que existam diferentes orientações sexuais, sinto a necessidade de personagens que tenham deficiências e questões mentais - e que isso não faça deles menos heróis.

Poxa, mas então você fica jogando com personagens parecidos com você? Nem sempre. Na real, na maioria das vezes eu busco personagens que não são nem um pouco como eu. O que eu faço é me pautar na minha experiência e na experiência das pessoas que conheço ou leio na internet para não cair em estereótipos e caricaturas. Não quero o malkaviano Coringa na minha mesa (e como narradora de vampiro, só libero malkav para quem eu sei que entende o que isso significa). Jogar com personagens neurodiversos exige um pouquinho de pesquisa, mas para mim, pesquisar para criar personagens é um prazer, e eu me afundo em sites de psicologia e livros que detalham minúcias do cenário com a mesma empolgação. Algumas coisas minhas sangram para o personagem? Assim como com todo mundo. Mas isso não invalida a experiência. As pessoas questionam quando seu personagem foge da norma em algo que você vivencia ou convive, mas não questionam quando ele repete padrões que são socialmente dominantes, mesmo que não sejam adequados ao personagem.

Porque incomoda as pessoas que um assunto tabu seja tratado com naturalidade.

Curiosamente, o que menos sangra entre eu e meus personagens são as questões mentais deles. O que sangra disso, na real, é essa sensação incrível de que podemos ser heróis da nossa história mesmo que nosso cérebro lute contra. Que podemos ser heróis e tornar elementos que a sociedade não aceita em nossos pontos fortes.

Então sim, meus personagens tem desvantagens mentais. Sim, isso vai fazer parte de como construo minhas histórias. E as vezes vou sim usar experiências minhas como laboratório. Porque é o que todo mundo faz, mesmo sem reparar. O personagem não é você. As vezes ele não tem nada de quem você é. Mas suas experiências vão afetar a interpretação. Do mesmo jeito que nosso jeito de pensar na atualidade vai influenciar o jeito como um personagem medieval age, as estruturas sociais excludentes que nos envolvem fazem perceber detalhes que tornam mais rica a interpretação de papéis.

Nunca vou fazer um personagem que é extremamente piadista por um motivo simples: eu tenho uma enorme dificuldade em entender piadas, e mais ainda em fazer piadas - existem dezenas de formas de fazer um personagem bem humorado sem depender de piadinhas. Na eventualidade de um personagem meu lidar com automutilação ele vai fazer isso se queimando ou qualquer outra coisa que não seja se cortar, porque eu tenho uma aflição terrível de cortes. Assim como não me vejo jogando com um personagem de extrema direita, porque isso me deixaria terrivelmente desconfortável. Assim como interpretar um personagem hetero é um esforço de interpretação - embora eu faça isso às vezes. Um dos personagens com que jogo agora tem fobia a toque. Quando fui pesquisar relatos de pessoas nessa condição, descobri que o que descrevem da sensação de ser tocado é parecido com o que eu sinto quando estou em uma crise de sobrecarga sensorial, o que foi uma coincidência peculiar que me permitiu que em uma cena onde ele descrevia o que sentia, eu soubesse o que dizer, mesmo que a experiência dele seja alienígena para mim, que sou uma pessoa de expressão física ao extremo.  

Nossa Sarah, outro personagem que lida com abuso de substâncias? Cara, eu sei que percentuais muito grandes da população vão passar por coisas do tipo na vida. Então para mim isso é um elemento comum o bastante para aparecer de diversas formas. E como eu jogo muito, e a muito tempo, colecionei personagens com essa característica - a porcentagem deles no todo dos meus personagens é um pouco menor do que seria em uma amostra populacional de verdade. Mas como é um elemento tabu, chama atenção.

Não se repara em quantos personagens hetero e brancos uma pessoa faz, porque essa é a norma. Não se repara que poderia estar fazendo a pergunta contrária: porque todos os meus personagens são neurotípicos? porque meus personagens não são hetero? porque eu jogo com o Brujah Iconoclasta e não o Idealista, porque meu mago age exatamente dentro dos tropos de magia que são repetidos à exaustão e não experimento algo diferente? 

A gente usa nossas experiências para construir nossos personagens. E quando eu decidi que contar a história de outro homem branco hetero e cis não me interessava, eu comecei a abrir meu olhar para permitir que outras histórias fossem contadas. Por uma questão de justiça social? Não, com toda sinceridade. Foi pelo prazer de ver outros jeitos de expressar o mundo. Foi para ser mais divertido e mais rico. Serve como laboratório para enriquecer as histórias de ficção que eu escrevo. Para eu me tornar mais empática. E para eu ver contadas as histórias não só de pessoas como eu, mas também as histórias de pessoas que passaram pela minha vida e são incríveis. Mas acima de tudo, o que torna prazeiroso para mim jogar RPG é a quantidade infinita de histórias que existem para ser contadas.

E cada pessoa tem a possibilidade de trazer histórias únicas para a narração coletiva. Então sim, eu dou voz a essas histórias. Cada um de nós dá voz para as histórias a que está familiarizado. A gente só não se dá conta disso. Meu mundo é um mundo colorido e cheio de gente que foge do normativo. Então vamos explorar isso.









imagem: Moira, minha personagem de Shadowrun, fusora elfa que tem acumulado histórias bem peculiares nesses anos todos de jogo e que com crises depressivas ou sem elas vai chutar bundas e arranjar encrenca com poderes maiores do que ela poderia lidar - e sobreviver para contar a história.


* usei o termo ferimento mental por causa de um texto muito bacana que li uma vez sobre um cara do exército canadense que trabalhava com soldados que sofriam de stress pós traumático. Ele dizia que era muito diferente encarar o TEPT/PTSD como um ferimento de guerra como qualquer outro ferimento físico ou como doença, e que isso influenciava na forma como os soldados conseguiam superar essa vivência. Não é difícil acompanhar o raciocínio disso, e adotei a ideia de que meu personagem vê os distúrbios que sua vida como guerreiro trouxeram como uma cicatriz de batalha, ainda que invisível. Tinha lido a respeito em outro contexto (uma leitura casual), mas trazer essa referência para a construção do personagem foi bem legal.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Primeiro Encontro das Mulheres RPGistas - como foi

 
Mas o que alimenta meu coração é pensar em como foi um dia bom. Em como eu vi mulheres falando,  fazendo e existindo,  sendo elas mesmas,  em  um ambiente que não é hostil. 
Estava lotado.  Cada milímetro da Terra Magic estava tomado de gente.  A primeira coisa que me chamou a atenção foi que em pleno fim da manhã de domingo,  as pessoas estavam em uma roda de discussão sobre a exclusão sistemática das minas no meio do RPG,  das situações dantescas e dos preconceitos que passamos.  Eu nem consegui entrar na sala,  assisti parte da conversa ali no corredor.  

Desci as escadas,  fui fumar um cigarro,  e lá estava um rapaz,  conversando com outro,  dizendo que nunca tinha imaginado aquelas coisas,  que precisava falar com as minas do grupo de jogo dele,  para ver o que de cagado podia ter feito sem perceber,  e como poderia agora consertar,  tornar o grupo de jogo um ambiente mais saudável.  Vi e ouvi muitas reações assim.  Os caras estavam ouvindo,  e ficaram estarrecidos de se dar conta das cagadas.  

Eu não sou muito de jogar em evento. Não escuto bem,  então é difícil conseguir me concentrar.  Já mestrei muito em evento,  mas se tenho a opção,  gosto mesmo é de conversar com as pessoas. 
E foi o que fiz a tarde toda.  Falamos de boardgame e RPG, de cardgame e de preconceito,  de machismo e intolerância religiosa,  de café e de educação,  de pedagogia e pobreza,  trocamos histórias.  Foi muito bom,  produtivo e divertido.  E enquanto isso,  as mesas de RPG rolavam,  e era bonito ver as mulheres mestrando,  atuando,  se divertindo. 

Um dos pontos que para mim foram mais fantásticos foi o fato de o evento ser amigável para famílias.  Não adianta,  um evento inclusivo precisa ter em mente que as pessoas tem filhos, e muitas mulheres acabam sendo excluídas de participar por isso.  

O número de vezes que a gente teve problemas para carregar o pequeno em eventos,  sabendo que o fato de dividirmos de verdade as tarefas entre dois cuidadores e termos amigos dando suporte sempre nos deixou em posição vantajosa,  e mesmo assim sempre foi operação de guerra,  me torna extremamente solidária. Acho que todo evento precisava pensar nisso. Porque é um pedaço enorme do público que acaba sendo excluído, deixando de participar porque tem filhos. E o encontro lidou lindamente com o assunto. Foi um exemplo a ser seguido por todos os encontros nerds. 
E teve muita coisa que ficou na minha cabeça.  De como as opressões cotidianas se infiltram naquilo que a gente faz.  De como uma mesa de RPG pode ser libertadora e questionadora,  ou só uma repetição do status quo.  De como é difícil que as pessoas entendam que não existe um estereótipo de "mulher rpgista"  de "mulher nerd",  que somos rpgistas,  assim como os caras,  de todos os tipos,  que o que nos define é nossa individualidade.  Não existe o jeito de jogar que as minas gostam,  o tipo de jogo que as minas gostam,  e que se muita menina se interessou por RPG na época do storyteller foi por ser um jogo com mais representatividade e menos chainmal bikini,  não pelo estilo ou tema. Foi só porque a gente não era sistematicamente excluída de participar só por ser menina. (e eu comecei com D&D,  vale dizer). 

Representatividade.  Acho que essa é a palavra para esse encontro e tudo que ele ainda vai gerar.
E vai gerar muita coisa. Colocou engrenagens em movimento que o pessoal nem imagina ainda.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Arena galeria

  Quando entrei na Arena da Campus Party pela primeira vez, o apelo visual do que eu vi foi como me arrebentar contra uma parede de tijolos. O espaço, tomado por bancadas e palcos, estava repleto de luzes coloridas, construções de latas de energético, placas, estandartes, adesivos colados em toda superfície possível misturando frases de efeito e logomarcas, pixações, post its com mensagens nas colunas, cartazes de todo tipo, desenhos de fita crepe no carpete. O som de palestra-show-ventilador-máquina-grito. O visual das pessoas, cheios de referências científicas e de cultura pop misturado com chinelo de dedo e pijama. Existe uma super estimulação visual e auditiva na Campus Party que trás a sensação de estar fora da realidade consensual.

Existe uma estética muito própria na expressão das bancadas da arena da CP e das vivências que acontecem dentro da arena. Eu, que passei a vida estudando conceitos estéticos e a estrutura que fundamenta a expressão artística de alguém, fiquei besta em como aquilo acontecia. Em como esse espaço que por alguns dias é a casa/trabalho/lazer desse monte de gente podia ser também algo que tinha o cheiro de uma zona autônoma temporária, e abrigar uma necessidade de expressão estética tão intensa. A Arena da Campus é uma extensão das expressões de arte urbana, de intervenção no ambiente. A conversa entre o que é tecnologia de ponta e o que é questionamento artístico de ponta se entrelaçam, mesmo sem saber.



Duvido um pouco que a maioria das pessoas participando da marcha das cadeiras nessa madrugada conheça o conceito de happening e a história artística disso, o que não impede que a marcha tenha a estrutura de um. A visão das pessoas andando com as cadeiras erguidas sobre a cabeça tem uma força estética inegável, e por mais que possa parecer pura bobagem, extrapolação de flash mob, caos, "coisa de huehue" ou de gente bêbada (entre outras opiniões menos afáveis no twitter), existe sim uma necessidade de expressão pessoal manifesta, que criou uma estrutura visual e performática.
A marcha das cadeiras. Procure no You Tube e veja a piração

Nas bancadas, tanto pelas associações identitárias de grupo como pelas expressões pessoais, essas manifestações estéticas tem uma presença firme que serve até como cartografia. Aparecem desde grafites até instalações complexas, algumas planejadas e outras que vão surgindo de forma espontânea. Os Case Mods são o exemplo mais pontual de expressão artística planejada. Os objetos decorativos que as pessoas trazem, pelúcias, action figures, banners, bandeiras e estandartes, são um outro grau de expressão planejada, mas que tem menos auto consciência artística. A maioria das pessoas não se vê como produtor criativo quando trás seu bicho de pelúcia para colocar em cima da CPU, mas a exposição disso de forma pública é uma expressão criativa.  

Acho importante explicar esse conceito: você não precisa ser artista para se expressar criativamente. O processo de expressão é natural ao ser humano, e dado o espaço para que isso ocorra, as pessoas vão usar métodos associados à arte tradicional para se expressar.

Entre as manifestações menos planejadas estão as reações das pessoas aos objetos e propagandas distribuídos no evento. O adesivo do canal Syfy colado em todo lugar possível e imaginável, muitas vezes desmontado e remontado para formar outra imagem. Adesivos usados para formar as linhas de um complexo desenho abstrato dentro da porta de um reservado no banheiro. A decoração de CPUs e notebooks com os adesivos distribuídos. A escolha de como organizar as coisas em cima da bancada, formando um espaço seu, único e pessoal. 

A certa altura, para se localizar, coisas como "perto da bandeira da Horda" "a esquerda da bancada com o cone", ou "aquele pc com um cachorro em cima" vão criando a cartografia, o mapeamento mental e afetivo do evento. As pessoas reconhecem essas manifestações e as observam, mesmo sem perceber o valor expressivo do processo.

Se existe um aspecto das vivências da CP que merece uma atenção particular de quem vem, é esse. Por um lado, observar o que é feito. Muita coisa ali pode ser usada como intervenção no mundo aqui fora. Por outro, pensar, o que eu estou fazendo? Qual é a minha expressão nesse espaço? E, se eu tenho uma mensagem para passar, será que não vale a pena assumir essa ação criativa de guerrilha e começar a também intervir nesse lugar?

Sabe o que é isso? O Sarau da Campus, que rola todas as noites.



(esse texto foi produzido na oficina #EscrevinaCampus, mediada pela Cláudia Ideguchi, e como todo texto de oficina, está aberto a críticas estilísticas. Esse blog vive em constante busca de identidade, e comentários ajudam)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

RPG e aprendizados

Kira, personagem icônica de Pathfinder
O RPG é a única constante da minha vida desde os 13 anos de idade. Tudo o mais já apareceu, sumiu, transmutou. O RPG permanece. E porque o RPG é essa coisa tão fantástica?

Caso alguém chegue aqui sem saber o que é RPG, além de reeducação postural global e rocket propulsion grenade, eu estou falando de "pen and paper" ou RPG de mesa, Role Playing Game, Jogo de Interpretação de Papéis.

Um bando de gente em volta de uma mesa (na verdade aqui nós jogamos nos sofás da varanda), fazendo improvisação teatral a partir de planilhas com os pontos fortes e fracos dos personagens criados, vivendo histórias em outros mundos dos mais variados temas.

Acho que o mais bacana do jogo é ser cooperativo e de criação coletiva. Quando seu tanker se arremessa contra o boss e toma tiro até na alma para que o coleguinha derrube ele e salve o mundo, você sabe que aprendeu alguma coisa. O jogo é muito didático, e do melhor jeito: sem ter a menor intenção disso.

Não adianta: as coisas que a gente aprende de verdade são as que vem com a experiência. Seja a experiência vivida ou a compartilhada, muito mais eficiente do que explicar algo é vivenciar.

Nas minhas mesas de jogo adolescentes, colocávamos em pauta todos os assuntos que nos assustavam. Aborto, gravidez indesejada, consumo abusivo de drogas e álcool, miséria, da morte do cachorro à opressão dos trabalhadores e a luta de classes, tudo passou por rodadas de refrigerante barato, pipoca e risadas nervosas, sem a menor intenção moral ou didática. Era simples: eu era narradora de Vampiro, que trabalha com "horror pessoal". É claro que eu ia usar os temas mais desconfortáveis para cada jogador. Jogávamos Lobisomem o Apocalipse, que é um jogo ecológico, e óbvio que isso ia abrindo percepções. Jogando D&D, lidávamos com conceitos de moralidade de outras épocas e de visões do papel da mulher.

Fiquei adulta, os grupos de jogo foram mudando, algumas pessoas permaneceram, outras seguiram seus caminhos, mas o tema dos jogos também se adensou. As risadas são muito maiores agora, que somos todos um bando de velhos irônicos. A qualidade da comida melhorou e o número de maços de cigarro em cima da mesa aumentou. Precisamos aprender a dobrar agendas para fazer as sessões de jogo acontecerem, e a tirar o filho de perto quando o tema do jogo está pesado demais.

Mas continuamos aprendendo e nos envolvendo nas tramas. Com um plus.

Minha mesa de jogo é composta por um monte de professores. Nem todos são da área, mas é a maior porcentagem. Curioso que entre todo mundo que eu conheço que jogava RPG na adolescência, muita gente virou professor, se não em tempo integral, pelo menos dando umas aulas livres por ai.

Porque a natureza do RPG está lá na contação de histórias, a forma natural de aprendizagem do ser humano, e por isso professores que jogam RPG manjam dos paranauês do ensino de uma forma orgânica.

O uso do RPG na educação não é novidade pra ninguém. Mas eu acredito que o mais produtivo não é o jogo preparado para passar um conteúdo, e sim as situações que naturalmente surgem nas mesas de jogo. Colocar um grupo para jogar significa pesquisa, discussão, análise, desenvolvimento de estruturas narrativas, conceituação estética, noções de ética, criação de personagens, interpretação...

Mas ai nós temos um outro problema. O problema de que começar do conhecimento que o grupo já tem não basta. Porque rpgistas estão inseridos na sua sociedade: são cheios de atitudes e postaras machistas, homofóbicas, gordofóbicas, imaturas e estão inseridos em uma sociedade alienante. E o que pode ser transformador em um grupo pode ser só reprodução do status quo em outro.

E ai vem o nosso papel como jogadores: o que eu trago para a mesa de jogo?

O que está fora da minha zona de conforto e que eu posso incluir no meu personagem? Quantos personagens não brancos tem na mesa? Quantas mulheres? Quando eu sou o mestre, como eu descrevo conceitos de beleza?

Na minha mesa de jogo, questionamentos ligados à homofobia e preconceito religioso são frequentes. Porque essa é nossa bagagem: um pouco queer, um pouco pagã, reproduzimos nossos questionamentos. Quando um homem cis e hetero faz uma personagem travesti que não é uma caricatura e meu personagem começa a se policiar para não tratar ela no masculino, ou quando um lobisomem é declaradamente homossexual e um dos personagens precisa defender ele diante da sociedade garou, ou quando os personagens decidem que só resta rezar e um personagem ateu clama pelo Monstro do Espagueti Voador, a gente muda um tiquinho que seja os paradigmas de todo mundo envolvido no jogo.Inclusive nas nossas piadas.

Mas até recentemente, meus personagens eram todos brancos. Falha minha. Auto análise, percepção do discurso, e eu comecei a mudar isso. Minha personagem de Shadowrun é uma elfa - mas ela não é uma caucasiana platinada, é uma Navajo. Super dentro do contexto do cenário, onde nativos americanos são uma potência fortíssima no jogo de poderes, e mesmo assim, quedê personagens jogadores indígenas? (Pontos para Pathfinder, que fica devendo no tratamento de imagens femininas, mas tem etnias e orientações sexuais variadíssimas - e personagens femininas não estereotipadas, pena que os desenhistas ainda não absorveram os conceitos do jogo).



Ah, mas é para transformar a mesa de jogo em território ativista?

Não, filhão. É só assumir que viver é um ato político. E por trás das nossas escolhas óbvias, tem algo ali, escondidinho. Uma vida inteira de cultura pop enfiando noções na nossa cabeça. E nós não precisamos reproduzir isso.

Acima de tudo: dá para enriquecer os personagens e o cenário e isso torna o jogo mais divertido, porque menos óbvio.



Não estou dizendo que tudo é as mil maravilhas. Como eu disse, mesmo sendo a única mulher na mesa a maior parte da vida e botando meu feminismo na discussão porque ele é intrínseco a mim, já fiz muita escrotice estereotipada. E não vou queimar na fogueira isso - meus personagens brancos caucasianos de olhos azuis tinham um motivo para estar lá, que tinha muito a ver com o white washing que somos submetidos. Mas quando eu decidi que minha personagem seria dineh, e eu tive que descobrir que os najavo se autodenominam dineh, eu me diverti mais, aprendi um teco de coisas e dei mais profundidade pro meu jogo, tornando ele muito mais rico.

Então, se você joga RPG, diz ai. O quanto você se permite sair da sua zona de conforto?





na imagem - Kira, clériga icônica de Pathfinder, badass até a medula como todos os icônicos, lésbica, não caucasiana e com uma roupa adequada para quem está em combate.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Sobre ser gamer





Eu achava que não era gamer. Ai um dia meu companheiro, que é um cara muito preza, e meu parceiro de nerdices faz tanto tempo que até perco a conta, me disse algo que pode parecer idiota, mas foi importantíssimo: o que importa não é o quanto é difícil: o que importa é se divertir. E que a maioria das pessoas que jogam não jogam tão bem assim. Elas só não assumem isso. 

Eu fiquei pasma olhando para a tela, para o controle do PS3 na minha mão, e pensando em como eu podia ter comprado uma ideia tão babaca - de que eu era menos gamer só porque sou RUIM de verdade jogando. (porque essa é uma mentira que repetem para a gente até a gente acreditar - especialmente quando se é mulher).

E eu parei de encanar e comecei a aproveitar o passeio.

De repente, no meu currículo nerd, eu passei a incluir que sim, sou gamer. Nunca fechei o Sonic do meu Master System, e não tenho tempo para jogar um décimo do que eu gostaria. Mas passo horas discutindo as narrativas de jogos (e sim, eu escolho meus jogos pela narrativa, e não, isso não torna esses jogos melhores ou piores, só os torna os jogos que eu gosto). Não consigo achievements legais no Steam (dois anos de conta e ainda no level 3). Mas eu consigo acertar o smoker toda vez que ele me pega no Left4Dead, e passei tantas madrugadas jogando que uma hora eu comecei a acertar mais os zumbis do que meus amigos, e fora do mundo virtual fazem piadas sobre como todo smoker em cem quilômetros vai atacar meu char porque eu sou uma chaminé de tabaco são uma constante. E joguei tantas horas de Enduro que isso devia ter me rendido um bônus na hora de tirar carteira de motorista (oi Luana!). E eu posso discutir detalhes obscuros de games que acho interessantes e te dar uma aula sobre a Poison, porque bom, ela é a Poison.

Acima de tudo, eu percebi que existe também uma questão de acessibilidade.

Eu tenho disgrafia. E o que isso significa, além de eu ter uma letra feia do inferno e escrever tão devagar que irrita as pessoas (e que sinceramente me impede de ter um aproveitamento real do ato de escrever se eu não tiver um teclado), é que por "dificuldade de integração visual-motora" você pode entender que fazer com que as minhas mãos obedeçam o que meu cérebro diz que eu deveria fazer, seja um head shot claro na tela ou me localizar em um mapa, é mais difícil do que para quem não tem essa dificuldade.

Então, o modo easy é mais difícil para mim do que para você, cara pálida, que tem os músculos da mão e o cérebro trabalhando em sintonia. O meu modo de jogo é quase sempre um nível mais difícil do que está escrito na tela, porque eu tenho um desafio extra: lidar com o fato de que a minha coordenação motora está lutando contra mim (exceto jogos que não exigem esse tipo de coordenação, como RPGs de combate por turno, que eu jogo numa boa).

Claro que eu sou tão cagada que adoro jogo de tiro em primeira pessoa, onde essa dificuldade é mais perceptível. O que me leva ao meu passado com um lança chamas em Return to Castle Wolfenstein (quem precisa de mira? eu vou tacar fogo em metade do cenário e foda-se =^_^= ). 

Não existe uma grande preocupação dos games, especialmente os mais mainstream, de ser acessível. Minha disgrafia é só um detalhe em um universo de outras dificuldades muito maiores que as pessoas enfrentam e que nem por isso deveriam impedir que elas se divirtam com jogos ou se identifiquem como jogadores.Mas de variantes de daltonismo a surdez, a falta de acessibilidade dos jogos é algo invisível para quem não passa por isso.

E eu mesma só me dei conta de que minha "inabilidade" na verdade é um reflexo da minha dificuldade motora muito recentemente. Afinal, a culpa de ser ruim jogando era minha e só minha...

O fato é que mesmo continuando difícil, eu passei a me divertir muito mais quando parei de me culpar e assumi que ok, faço o melhor possível com o pouco tempo que tenho para treinar e os músculos que tenho nas mãos. E por outro lado - que exercício ótimo para melhorar minha relação com a disgrafia que é jogar! É um exercício que eu faço sem perceber - o que nos leva ao potencial terapêutico e pedagógico dos games, que eu vou discutir com mais atenção outro dia. Estou de férias, afinal.

Eu escuto muita gente dizendo que não gosta de rótulos e que mimimi. Eu gosto de identidades, porque em um mundo onde tudo é feito para obliterar sua individualidade, especialmente uma individualidade que não se adequa ao que todo mundo faz igualzinho, esses títulos são pontos de apoio que ajudam a gente se se impor. Nomear nossas identidades é um exercício de auto-afirmação e uma forma de expor ao mundo que existimos.

Quando eu digo que sou gamer, eu crio um elo com aqueles meus alunos que descobrem que podem discutir mods de Minecraft comigo - o que me faz um adulto muito mais confiável e ajuda barbaramente nossa relação. Quando digo que sim, sou mulher e gamer, eu transformo isso em um ato político e de afirmação de gênero.

Existe uma linha muito tênue entre "eu não gosto de rótulos somos todos humanos" e a negação de identidades dissonantes. Então, sim, eu assumi também esse rótulo (assim como assumi o rótulo de nerd) porque vivo em um mundo onde antes de ser lida como humana, sou lida como mulher, sou lida como branca (mesmo não sendo), sou lida como nerd, sou lida como queer, sou lida como N coisas.

E os games estão ai. Expondo ou colaborando com as construções sociais.

Então sim, eu sou gamer. E tenho orgulho disso.



foto de poser querendo pagar de gatinha 
dizendo que joga. 

(beijo prozinimigo,
tirei a foto porque tava 
me achando  poderosa
mesmo com o headphone novo.)