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quarta-feira, 11 de março de 2015

Primeiro Encontro das Mulheres RPGistas - como foi

 
Mas o que alimenta meu coração é pensar em como foi um dia bom. Em como eu vi mulheres falando,  fazendo e existindo,  sendo elas mesmas,  em  um ambiente que não é hostil. 
Estava lotado.  Cada milímetro da Terra Magic estava tomado de gente.  A primeira coisa que me chamou a atenção foi que em pleno fim da manhã de domingo,  as pessoas estavam em uma roda de discussão sobre a exclusão sistemática das minas no meio do RPG,  das situações dantescas e dos preconceitos que passamos.  Eu nem consegui entrar na sala,  assisti parte da conversa ali no corredor.  

Desci as escadas,  fui fumar um cigarro,  e lá estava um rapaz,  conversando com outro,  dizendo que nunca tinha imaginado aquelas coisas,  que precisava falar com as minas do grupo de jogo dele,  para ver o que de cagado podia ter feito sem perceber,  e como poderia agora consertar,  tornar o grupo de jogo um ambiente mais saudável.  Vi e ouvi muitas reações assim.  Os caras estavam ouvindo,  e ficaram estarrecidos de se dar conta das cagadas.  

Eu não sou muito de jogar em evento. Não escuto bem,  então é difícil conseguir me concentrar.  Já mestrei muito em evento,  mas se tenho a opção,  gosto mesmo é de conversar com as pessoas. 
E foi o que fiz a tarde toda.  Falamos de boardgame e RPG, de cardgame e de preconceito,  de machismo e intolerância religiosa,  de café e de educação,  de pedagogia e pobreza,  trocamos histórias.  Foi muito bom,  produtivo e divertido.  E enquanto isso,  as mesas de RPG rolavam,  e era bonito ver as mulheres mestrando,  atuando,  se divertindo. 

Um dos pontos que para mim foram mais fantásticos foi o fato de o evento ser amigável para famílias.  Não adianta,  um evento inclusivo precisa ter em mente que as pessoas tem filhos, e muitas mulheres acabam sendo excluídas de participar por isso.  

O número de vezes que a gente teve problemas para carregar o pequeno em eventos,  sabendo que o fato de dividirmos de verdade as tarefas entre dois cuidadores e termos amigos dando suporte sempre nos deixou em posição vantajosa,  e mesmo assim sempre foi operação de guerra,  me torna extremamente solidária. Acho que todo evento precisava pensar nisso. Porque é um pedaço enorme do público que acaba sendo excluído, deixando de participar porque tem filhos. E o encontro lidou lindamente com o assunto. Foi um exemplo a ser seguido por todos os encontros nerds. 
E teve muita coisa que ficou na minha cabeça.  De como as opressões cotidianas se infiltram naquilo que a gente faz.  De como uma mesa de RPG pode ser libertadora e questionadora,  ou só uma repetição do status quo.  De como é difícil que as pessoas entendam que não existe um estereótipo de "mulher rpgista"  de "mulher nerd",  que somos rpgistas,  assim como os caras,  de todos os tipos,  que o que nos define é nossa individualidade.  Não existe o jeito de jogar que as minas gostam,  o tipo de jogo que as minas gostam,  e que se muita menina se interessou por RPG na época do storyteller foi por ser um jogo com mais representatividade e menos chainmal bikini,  não pelo estilo ou tema. Foi só porque a gente não era sistematicamente excluída de participar só por ser menina. (e eu comecei com D&D,  vale dizer). 

Representatividade.  Acho que essa é a palavra para esse encontro e tudo que ele ainda vai gerar.
E vai gerar muita coisa. Colocou engrenagens em movimento que o pessoal nem imagina ainda.

sábado, 16 de agosto de 2014

Steamcon 2014 - sábado

Steampunk é um amor meu faz um tempão. Desde que comecei a jogar Castle Falkenstein. Desde bem antes, quando eu li Júlio Verne...

Este ano está acontecendo, neste fim de semana, a segunda Steamcon. Em Paranapiacaba, a vila que já é um pedacinho de séc. XIX nos dias de hoje.

Não deu tempo de tirar um quinto das fotos que eu queria, porque estava vendo e conversando com tanta gente bacana. Mas vai um resuminho do dia... deixando claro que estavam rolando mais coisas, mas eu não consigo estar em dois lugares ao mesmo tempo. =)

Para começar, se você nunca foi para Paranapiacaba, vá. A vila é meu lugar favorito para não fazer nada: tomar um café, olhar as montanhas, andar entre as casas ferroviárias e tirar fotografia.

Chegamos cedo, enquanto os stands estavam sendo montados, as pessoas chegando. E o maravilhoso: as pessoas chegavam, e chegavam, e chegavam. O visual das pessoas em seus steamplays andando pelas ruas da vila eram um sonho.



Uma das coisas que eu gosto muito é o "faça você mesmo". As histórias de como as roupas foram criadas, ou adaptadas, os acessórios sendo criados, a busca para montar o personagem (siiim, senhoras e senhores, a maior parte das pessoas pensa em um personagem para vestir, não é só juntar peças bonitas, é preciso ter uma lógica, e isso é um exercício de criatividade).

A primeira palestra que assisti eu não tenho fotos. Foi sobre o bicentenário do Visconde de Mauá. Didática, mostrando esse empreendedor genial que era um cara steampunk na vida real.



E com uma alegria extra: fui sorteada e ganhei um exemplar de São Paulo em guerra - 1924, do Projeto de Mão em Mão (e disponível em pdf legal no link).

Depois disso, aproveitei para conversar e ver tantas pessoas queridas. André, que adora a vila, estava bagunçando na maior curtição. Conversar sobre literatura, ficção científica (afinal, steampunk é ficção científica e muita gente lá gosta de todo tipo de FC), rever amigos que moram em outros estados, almoçar (e ver as reações das pessoas para aquele bando de gente vestido como gente vinda de um passado alternativo), foi hora de uma ótima mesa redonda sobre literatura steampunk (que me deixou mais animada para terminar a reescrita do meu romance).






Depois, passei horas que nem percebi passarem conversando mais ainda sobre literatura, mitologias e RPG. Um sábado para deixar qualquer nerd satisfeito... e nem tinha acabado ainda.

No início da noite, assistimos à peça teatral Cinco semanas em um balão, da Companhia Sabre de Luz (!) de teatro. No you tube tem um teaser da peça.

E agora, um momento mãe coruja:



Você já viu um aviador mais bonito que esse? Eu nunca. Meu próprio Steamboy...



Agora, umas horinhas de descanso porque daqui a pouco voltamos para a vila, para a Steamcon e para um mundo que as vezes, sinto mais meu do que esse onde eu vivo.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Aniversário do filhote nerd - parte 1

Esse post não vai ter as fotos de decoração e bolo e como eu fiz todas as coisas para a festa do meu pequeno. Isso vai estar no post 2. Esse aqui é para falar de outra coisa, mais geral. É um outro tipo de "como fazer".

Existem muitas histórias para se contar sobre festas de aniversário aqui em casa. Muito antes das agora 9 festas do meu filho, existiram todas as minhas festas do tempo de criança. E existiu também uma conversa, uma conversa quase besta com um amigo e que ficou na memória porque foi a nossa primeira conversa "de adultos" (acho que uma das primeiras conversas de adulto que eu tive com qualquer um).


Essa conversa versava sobre a importância das festas e porque é que todo ano deveria ser comemorado. Sobre como é importante e perfeito e constrói memórias. Foi uma daquelas conversas que adolescentes tem porque depois de farejar o fim da infância, você sabe que algo está muito errado e precisa tomar providências. E naquela noite nós tomamos essa providência: festas eram importantes. Nós cresceríamos para fazer festas. Uma decisão que parece simples, mas que resume um modo de vida.

Os planos não foram como o esperado. Porque - e esse é um dos motivos para eu achar festas muito importantes- a vida sempre vai atropelar nossos planos.

O que nos leva para as minhas festas de criança. Meus pais -que foram pais bem cedo e por isso deviam ter claro essa urgência em celebrar o fato de estar vivo, só porque se esta vivo- sempre me fizeram as festas mais legais do universo. Que eram, para os padrões das festas que se vê por ai, coisas bem simples. Mas eram fantásticas por um motivo muito exato:

Meus pais levavam a sério as ideias malucas que eu tinha. 

Graças a uma combinação de restrições orçamentárias, pais crafteiros e restrições inerentes da década mesmo, minhas festas eram únicas e em grande parte, feitas por eles. As decorações prontas não eram acessíveis como hoje. Aliás, festa temática era meio novidade. E eu era uma criança que lia muito mais do que devia e queria festas de temas não muito convencionais... ou que mesmo sendo comuns, não eram coisas que você encontrava feitas. Ok, até tive uma ou outra festa com temas comprados feitos (assim como meu filho também já teve), mas a organização da coisa feita em casa sempre deu o tom. Porque era pegar a coisa comprada e transformar numa ambientação que conseguisse o efeito X.

Minha mãe tem no seu curriculo coisas como carruagens da Cinderela, mapas do Duck Tales, Ursinhos Carinhosos, unicórnios e alienígenas. Culminando no Halloween com que comemorei meus 15 anos. E acrescente nisso os aniversários dos meus primos... e infinitos desenhos dos Cavaleiros do Zodíaco que ela produziu para a gente em uma época em que não se podia simplesmente abrir o Google e imprimir um monte de desenhos legais.


Levar a sério as ideias malucas que eu tinha pode ser desdobrado em algo um tantinho mais complexo, e que é o verdadeiro foco desse texto.


Nunca subestime o efeito de um unicórnio pintado em cartolina e por as caixas de som no quintal em uma criança de 8 anos de idade.


Na verdade, eram duas cartolinas bem maiores que essas que se compra em papelaria, porque meu avô era encadernador e papel aqui em casa sempre foi uma fonte supimpa de magia. E era um unicórnio E um pégaso, e acho que tinha purpurina neles - ou pelo menos eu me lembro de eles brilharem.

Mas o que eu via, parada na escada olhando as pessoas dançando, era isso:







Sério. Porque eu não era uma adulta e meus pais tiveram essa sacação genial. Eu-não-era-adulta-e-eu-não-pensava-como-adulta.

E para uma criança, cara, aquele unicórnio poderia muito bem estar voando sobre as pessoas que dançavam. Porque para mim, ele estava. Mesmo.

E o que diabos isso tem a ver com seu blog de coisas nerds, Sarah Helena? 

Primeiro: o blog é meu, eu falo sobre o que eu quiser.

Segundo: imaginação, caras. Festas infantis são o passaporte carimbado para Nárnia. E é assim que se constrói tudo aquilo de fantástico que a gente gosta. Quando eu leio ou vejo um filme ou um seriado, e consigo me envolver ali até que o mundo externo cessa de existir, eu estou resgatando aquela menina de oito anos de idade parada na escada olhando O Baile - o verdadeiro, arquetípico Baile- ali, diretamente no meu quintal.

E qualquer cosplayer sabe beeeeeeem essa sensação, porque é isso que a gente faz: usa um gancho visual para "puxar" uma vivência inteira de alguém para o plano físico.


Não estou dizendo que você não deva investir nos detalhes em uma festa de criança. Na verdade, é o contrário: crianças percebem detalhes que os adultos não enxergam. Mas esse senso de maravilhamento que a gente consegue com as coisas que gosta, a criança experimenta com um tipo de detalhismo que não é o do mundo adulto. E é esse olhar que a gente precisa encontrar.

Então, quando eu estou pensando em uma festa (para o meu filho, para outra criança, para mim) eu penso muito nisso. Para quem eu estou fazendo a festa? É para os convidados? Para as fotografias? Ou para a pessoa que é dona da festa poder curtir um mergulho na toca do coelho e ir parar no País das Maravilhas?


E uma coisa não exclue a outra.Mas isso me dá um foco, um recorte. Um caminho por onde agir.

Eu quero que todo mundo ache bonito, porque eu quero que todo mundo consiga mergulhar junto com ele nas coisas pelas quais ele se fascina. Mas antes de mais nada, toda a construção cênica que faço é para o prazer dele, tendo em vista as coisas que ele considera importantes.

As festas que eu faço não são aquelas que vão ficar mais lindas na foto. Mas sempre são pensadas para que as crianças tenham espaços legais de curtição, que os adultos tenham um momento de resgate, e que o clima seja, no geral, de fantasia.

Então, tudo isso foi só para dizer que eu curto muito festa de criança. Que eu enxergo nelas a mesma coisa que eu vejo quando a gente vê um cosplay bem feito, quando tira uma foto sentado na cadeira de comando da Enterprise (mesmo estando no meio de um evento) ou tira uma foto com um prop muito bacana.

É uma porta para outro mundo.

E para começar o papo que continua no próximo post, um resumo do que tivemos até aqui nestes nove anos:

O primeiro ano, o único que a gente escolheu, não ele, teve como tema Totoro. Foi uma festa muito parecida com as minhas de criança, porque a gente desenhou Totoros gigantes em papel kraft e recortou e colou nas paredes. Eu ainda tinha uma visão de decoração de festa que era em duas dimensões. Foi um exercício de pesquisa, e a gente teve cartões postais do Totoro com selos com a fotografia do pequeno como lembrança. (esses selos vc manda fazer no Correio e tem valor postal de verdade, e são incríveis.)

No ano seguinte, o tema foi Carros, da Disney. Legaaaal, um tema que a gente podia comprar as peças prontas! E com um tanto de isopor, eu descobri que a decoração podia se espalhar de um outro jeito, não só nas paredes. E nesse ano eu cometi uma aventura, porque tinha que ter uma: fiz um exercício de imaginação: como seria o macacão de piloto do Relâmpago McQueen se ele fosse pilotado por uma pessoa? E costurei eu mesma uma roupa de McQueen pro pequeno.

No terceiro ano, o tema foi Trem. E os primeiros paper crafts fizeram sua aparição. Também foi o ano em que a gente descobriu o EVA. No quarto ano, foi Carros de novo. E além de reaproveitar as peças que a gente tinha, a gente fez novas, e criou todo um lance de uso dos espaços, de "cantos" para as crianças (e os adultos) explorarem/aproveitarem.

Com cinco anos, adivinha? Trens outra vez! Mas dessa vez, o foco eram os trens do Thomas e Seus Amigos, a primeira aventura de coleção do pequeno. E a gente descobriu as coisas que você encontra na internet e imprime para fazer a decoração...

Seis anos. Backyardigans. Eeeeeeeee, tema que você encontra pronto! Mas foi o ano da Grande Aventura dos Cupcakes. Porque o André pediu que queria: a) um bolo azul b)cupcakes com confeitos coloridos. E a louca aqui começou a fazer os bolos de aniversário do filho. O que é um negócio muito aventuroso, mesmo.

Sete anos. E o recém descoberto nerdizinho pediu um aniversário do Super Mário. Na verdade, do Super André. E a gente transformou a chácara dos meus avós em uma fase de Mário, com moedas e caixas suspensas no ar e um Mário em 8bits feito de cupcakes... enquanto o pequeno estava vestido como Super André, Porque o Mário usa, vermelho, o Luigi verde, e o André azul e eles tem aventuras juntos. E eu fiz o macacão de Super André, a boina e ainda transformei ele em sprite 8bits tbm... Imprimimos a pia da cozinha naquele ano, e a festa tinha elementos de 30 anos de games e algumas coisas que achei na internet e são tão legais que eu tenho vontade de deixar montadas o ano inteiro em cima da mesa.

Ano passado, o tema foi Minecraft. E todo aquele know-how de papercraft festeiro foi elevado over 8000... porque foi basicamente o festival de papercrafts. E um painel pintado, com um cenário do jogo. Ano passado ele chegou com um vídeo tutorial do bolo que ele queria. Já que queria um bolo difícil (um bloco de TNT e tinha que ser em glacê de manteiga, não pasta americana), ele teve a gentileza de pesquisar por conta própria como era o melhor jeito de construir o bolo. (Preciso dizer: esse bolo foi uma das coisas mais prova de superação da minha vida. foi aterrorizante porque no meio do caminho eu realmente achei que não ia dar conta e não existia um plano B. Mas como falhar não era uma opção válida... eu dei conta, rs.)

E como é tradicional repetir temas, ele decidiu por fim que queria mais um aniversário de Minecraft. Que vai ser o assunto de outro post uma hora dessas, e por isso eu paro por aqui...