Oi filho.
Isso aqui é uma carta aberta. Quer dizer que eu estou escrevendo para você, mas também estou escrevendo para postar no meu blog e explicar para outras pessoas aquilo que eu penso sobre isso. Sei que você passou a tarde jogando, e não vendo seus canais do YouTube e as notícias de games, e quero estar pronta para responder suas perguntas quando elas chegarem. Quando você ler que a Microsoft comprou a Mojang por mais de 2 bilhões de dólares. Por isso eu escrevo.
Minecraft entrou na nossa vida uns três anos atrás, né. O que eu me lembro mais é de perguntar o que você queria ganhar no Dia das Crianças, e você responder: uma licença do Minecraft. Lembro de você me explicar sobre a importância de ter o jogo oficial e não uma cópia pirata porque a Mojang era um pequena empresa na Suécia e não uma das gigantes dos games, e que por isso a coisa certa a fazer era pagar pelo jogo.
Eu me senti muito orgulhosa de você naquele dia. Porque mesmo a maioria dos adultos não tem muito claro na mente a diferença entre uma empresa gigante e as pequenas produtoras de games. Mas você compartilha meu amor por games indies, e entende que existe um universo enorme de formas diferentes de se fazer e jogar games. E por causa disso, eu quis jogar Minecraft. E me apaixonei pelo jogo, assim como você.
E agora, essa empresa que te fez descobrir esse mundo foi vendida para uma das "majors", uma das grandes companhias não só de jogos, mas os caras que fazem o Windows e tudo isso. E você já deve ter percebido que para a maioria das pessoas, falar Microsoft significa falar "os caras maus".
Particularmente, a mamãe não vê as coisas tão preto e branco. Na verdade, a mamãe tem mais contra a Apple hoje em dia do que contra a Microsoft, por muitos motivos que não vem ao caso. Todas as grandes empresas tem atitudes complicadas, e nem sempre fazem as melhores escolhas para os usuários. Acima de tudo, empresas são feitas por pessoas: elas tem como objetivo conseguir lucro, ganhar dinheiro, e existem muitos jeitos de fazer isso. Algumas pessoas são mais éticas. Outras, fazem coisas questionáveis, erradas, algumas até fazem coisas ilegais - ou pelo menos imorais. Sabe quando você reclama sobre as propagandas, sobre como propagandas te incomodam? As empresas usam as propagandas para vender ideias, conceitos, sentimentos, que associam aos produtos. Quando fazem a propaganda de um brinquedo, não estão vendendo só o brinquedo. Estão vendendo a ideia de "diversão", de "poder", de "alegria". Quando fazem a propaganda de um computador ou console, celular ou tablet, estão vendendo a ideia de que "olha, pessoas com a personalidade mais legal são as que compram esse produto" - e você sabe que isso não é verdade.
O que a Microsoft está comprando não é só a Mojang: é a influência da Mojang sobre milhares de crianças que como você, mergulharam no mundo dos games a partir da experiência com Minecraft. Eles querem poder influenciar vocês, os jogos que vão pedir para comprar enquanto ainda dependem dos pais para comprar jogos, e mais para frente, quando tiver seu próprio dinheiro e comprar seus próprios jogos, influenciar também o que vocês vão comprar. Sim, eles também querem comprar a opinião dos adultos que jogam Minecraft. Mas para as empresas, comprar a opinião de um adulto é mais difícil. As crianças e os adolescentes ainda estão conhecendo o mundo, mudam de opinião mais fácil - a gente já conversou sobre isso, sobre o impacto das propagandas. Foi assim que a mamãe começou a fumar, por exemplo. Foi assim que por muito tempo a mamãe achava que de todos os gibis do mundo, só os da Marvel eram legais. Porque eu era adolescente e todas aquelas propagandas me influenciaram. Óbvio que crianças e adolescente tem opinião: as propagandas me diziam que video-game e quadrinhos e espadas eram coisas só de menino, e eu nunca aceitei isso, eu sempre soube que isso era mentira. Assim como você fica irritado com as propagandas. Mas muita coisa ainda gruda na nossa cabeça, até sem a gente perceber, e é isso que eles querem comprar.
Só que existe uma coisa que nenhuma empresa vai poder comprar: a sua história pessoal com Minecraft. O significado que o jogo tem para você e só para você, como pessoa única que é. A Microsoft pode ser dona da Mojang, mas não pode ser dona do que você aprendeu com Minecraft: não só os conhecimentos (que são muitos), mas a forma de pensar que você aprendeu.
Sua lista de jogos no Steam ainda vai ter mais jogos de pequenos desenvolvedores do que de grandes empresas, assim como a minha. Você entendeu que existem muitas formas de esperiência com os games: no computador, no nintendo, no playstation, no x-box, nos portáteis ou no tablet, e que elas são formas diferentes, nem melhores, nem piores.
Você vai continuar achando a jogabilidade, a diversão e a história de um jogo mais importantes do que os gráficos. Vai continuar usando os jogos para exercitar sua imaginação, buscando jogos onde customização tenha espaço, onde possa criar suas próprias fases, onde existam mods divertidos. Vai continuar buscando jogos sand-box.
Claro que essa é uma mudança um pouco assustadora: não dá para saber o que uma empresa grande vai fazer com o jogo que a gente ama tanto. Mas eu tenho um palpite: pelo menos por enquanto, não vai mudar nada, exatamente porque eles querem conquistar os jogadores, querem que eles gostem e confiem na Microsoft, e não é mudando tudo do dia para a noite que vão conseguir. Depois, mudanças virão, talvez.
Mas lembra quando você começou a estudar sobre Street Fighter? Lembra de como Street Fighter mudou com o passar do tempo? Não só o visual, ou a jogabilidade, mas como novas coisas foram sendo criadas, como as histórias foram se expandindo, como o mundo do jogo foi ficando maior?
O Minecraft que a gente joga hoje não é o que a gente jogava três anos atrás. Não estamos discutindo apaixonadamente tudo de novo da atualização 1.8? Reaprendendo certas coisas, aproveitando as novidades? Ainda não reaprendi a lidar com o novo jeito dos mapas e acho melhor o jeito antigo. Mas ao mesmo tempo, tem muitas coisas legais. A gente sempre vai ter versões diferentes de jogos, algumas vezes vamos gostar, outras não. Mas é assim que as coisas acontecem. Jogos vivem em constante evolução. Quando você for mais velho e puder jogar Shadowrun, eu vou te mostrar isso direitinho, porque ele é um ótimo exemplo.
E é importante lembrar outra coisa: o Notch não vendeu a Mojang só por causa do dinheiro. Minecraft ficou muito grande. Muita gente joga. Você se lembra de todas as nossas conversas sobre porque você não pode jogar jogos multiplayer online? Porque a gente não tem como saber quem são as pessoas ali, e nem todas as pessoas são legais? Nem todo jogador de Minecraft é como você, que admira o Notch e os outros criadores do jogo e entende que eles são pessoas e tem a vida deles. Algumas pessoas esquecem disso, e falam coisas duras e ruins. Coisas que incomodam e machucam. E isso tem deixado o Notch muito chateado. Ele quer fazer outras coisas, coisas menores, diferentes. É chato ficar fazendo a mesma coisa para sempre: Minecraft é legal, mas você não ia querer jogar só ele, e nunca mais nenhum outro jogo, né?
A mesma coisa é para os fundadores da Mojang. Eles querem fazer outras coisas, experimentar coisas diferentes, sem ter a internet inteira cuidando da vida deles, falando coisas inconvenientes. Por esse lado, vai ser muito bom ter esses caras de novo programando jogos que eles estão com vontade de fazer, sem ter que se preocupar com Minecraft, que tem outras pessoas cuidando dele. E em uma empresa pequena, como você já percebeu, é que surgem as coisas mais inovadoras e as ideias mais malucas, e com o tamanho que o Minecraft tomou, estava cada vez mais difícil para eles se dedicarem a criar coisas novas e diferentes. Para eles, é melhor deixar essa fase da vida para lá, e começar coisas novas, e a gente também precisa ter essa empatia: o que é melhor para eles, que criaram o jogo, mesmo que não seja o melhor para quem joga, precisa estar na nossa mente.
Então, é isso. É assustador? Com certeza. As empresas grandes fazem coisas ruins e questionáveis? Fazem, sim, mas também fazem Little Big Planet, que você adora. Então, não precisa ficar chateado com isso. Talvez alguns dos youtubbers que você gosta não gostem dessas mudanças. Mas você também já ouviu a mãmae e o papai terem opiniões diferentes sobre um mesmo jogo ou console, não viu? Quando a DC lançou os Novos 52 e mudou todo o universo dos quadrinhos dela, a mamãe ficou bem brava, e todo mundo me ouviu reclamar. Mas algumas histórias me surpreenderam por serem bem legais e hoje em dia os desenhos animados de heróis que mais gosto são da DC. O pessoal que você assiste e lê também vão passar pela mesma coisa. E ao mesmo tempo, do mesmo jeito que a gente não precisa se deixar influenciar pelas propagandas, não precisamos concordar com tudo que lemos e assistimos só porque gostamos de outras coisas que essas pessoas gravaram ou escreveram. As vezes, uma pessoa pode dizer algo muito legal em um dia, e ser um completo babaca em outro. E ok, a gente vai encontrar sempre novas pessoas para ler e assistir e eu tenho certeza que logo você também vai estar postando sua opinião por ai.
Acima de tudo, vou estar aqui para te explicar o que for preciso. E sempre, sempre, nossa história é só nossa, e nenhuma empresa, grande ou pequena, vai ser dona daquilo que sentimos e fazemos com o que experimentamos nos jogos. Isso você pode ter certeza: a sua experiência com um jogo, com um livro ou uma história em quadrinho, ou com um filme, ou desenho, é só sua e ninguém jamais vai tirar isso de você.
Um beijo, com amor,
Mamãe.
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segunda-feira, 15 de setembro de 2014
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Aniversário do filhote nerd - parte 1
Esse post não vai ter as fotos de decoração e bolo e como eu fiz todas as coisas para a festa do meu pequeno. Isso vai estar no post 2. Esse aqui é para falar de outra coisa, mais geral. É um outro tipo de "como fazer".
Existem muitas histórias para se contar sobre festas de aniversário aqui em casa. Muito antes das agora 9 festas do meu filho, existiram todas as minhas festas do tempo de criança. E existiu também uma conversa, uma conversa quase besta com um amigo e que ficou na memória porque foi a nossa primeira conversa "de adultos" (acho que uma das primeiras conversas de adulto que eu tive com qualquer um).
Essa conversa versava sobre a importância das festas e porque é que todo ano deveria ser comemorado. Sobre como é importante e perfeito e constrói memórias. Foi uma daquelas conversas que adolescentes tem porque depois de farejar o fim da infância, você sabe que algo está muito errado e precisa tomar providências. E naquela noite nós tomamos essa providência: festas eram importantes. Nós cresceríamos para fazer festas. Uma decisão que parece simples, mas que resume um modo de vida.
Os planos não foram como o esperado. Porque - e esse é um dos motivos para eu achar festas muito importantes- a vida sempre vai atropelar nossos planos.
O que nos leva para as minhas festas de criança. Meus pais -que foram pais bem cedo e por isso deviam ter claro essa urgência em celebrar o fato de estar vivo, só porque se esta vivo- sempre me fizeram as festas mais legais do universo. Que eram, para os padrões das festas que se vê por ai, coisas bem simples. Mas eram fantásticas por um motivo muito exato:
Meus pais levavam a sério as ideias malucas que eu tinha.
Graças a uma combinação de restrições orçamentárias, pais crafteiros e restrições inerentes da década mesmo, minhas festas eram únicas e em grande parte, feitas por eles. As decorações prontas não eram acessíveis como hoje. Aliás, festa temática era meio novidade. E eu era uma criança que lia muito mais do que devia e queria festas de temas não muito convencionais... ou que mesmo sendo comuns, não eram coisas que você encontrava feitas. Ok, até tive uma ou outra festa com temas comprados feitos (assim como meu filho também já teve), mas a organização da coisa feita em casa sempre deu o tom. Porque era pegar a coisa comprada e transformar numa ambientação que conseguisse o efeito X.
Minha mãe tem no seu curriculo coisas como carruagens da Cinderela, mapas do Duck Tales, Ursinhos Carinhosos, unicórnios e alienígenas. Culminando no Halloween com que comemorei meus 15 anos. E acrescente nisso os aniversários dos meus primos... e infinitos desenhos dos Cavaleiros do Zodíaco que ela produziu para a gente em uma época em que não se podia simplesmente abrir o Google e imprimir um monte de desenhos legais.
Levar a sério as ideias malucas que eu tinha pode ser desdobrado em algo um tantinho mais complexo, e que é o verdadeiro foco desse texto.
Nunca subestime o efeito de um unicórnio pintado em cartolina e por as caixas de som no quintal em uma criança de 8 anos de idade.
Na verdade, eram duas cartolinas bem maiores que essas que se compra em papelaria, porque meu avô era encadernador e papel aqui em casa sempre foi uma fonte supimpa de magia. E era um unicórnio E um pégaso, e acho que tinha purpurina neles - ou pelo menos eu me lembro de eles brilharem.
Mas o que eu via, parada na escada olhando as pessoas dançando, era isso:
Sério. Porque eu não era uma adulta e meus pais tiveram essa sacação genial. Eu-não-era-adulta-e-eu-não-pensava-como-adulta.
E para uma criança, cara, aquele unicórnio poderia muito bem estar voando sobre as pessoas que dançavam. Porque para mim, ele estava. Mesmo.
E o que diabos isso tem a ver com seu blog de coisas nerds, Sarah Helena?
Primeiro: o blog é meu, eu falo sobre o que eu quiser.
Segundo: imaginação, caras. Festas infantis são o passaporte carimbado para Nárnia. E é assim que se constrói tudo aquilo de fantástico que a gente gosta. Quando eu leio ou vejo um filme ou um seriado, e consigo me envolver ali até que o mundo externo cessa de existir, eu estou resgatando aquela menina de oito anos de idade parada na escada olhando O Baile - o verdadeiro, arquetípico Baile- ali, diretamente no meu quintal.
E qualquer cosplayer sabe beeeeeeem essa sensação, porque é isso que a gente faz: usa um gancho visual para "puxar" uma vivência inteira de alguém para o plano físico.
Não estou dizendo que você não deva investir nos detalhes em uma festa de criança. Na verdade, é o contrário: crianças percebem detalhes que os adultos não enxergam. Mas esse senso de maravilhamento que a gente consegue com as coisas que gosta, a criança experimenta com um tipo de detalhismo que não é o do mundo adulto. E é esse olhar que a gente precisa encontrar.
Então, quando eu estou pensando em uma festa (para o meu filho, para outra criança, para mim) eu penso muito nisso. Para quem eu estou fazendo a festa? É para os convidados? Para as fotografias? Ou para a pessoa que é dona da festa poder curtir um mergulho na toca do coelho e ir parar no País das Maravilhas?
E uma coisa não exclue a outra.Mas isso me dá um foco, um recorte. Um caminho por onde agir.
Eu quero que todo mundo ache bonito, porque eu quero que todo mundo consiga mergulhar junto com ele nas coisas pelas quais ele se fascina. Mas antes de mais nada, toda a construção cênica que faço é para o prazer dele, tendo em vista as coisas que ele considera importantes.
As festas que eu faço não são aquelas que vão ficar mais lindas na foto. Mas sempre são pensadas para que as crianças tenham espaços legais de curtição, que os adultos tenham um momento de resgate, e que o clima seja, no geral, de fantasia.
Então, tudo isso foi só para dizer que eu curto muito festa de criança. Que eu enxergo nelas a mesma coisa que eu vejo quando a gente vê um cosplay bem feito, quando tira uma foto sentado na cadeira de comando da Enterprise (mesmo estando no meio de um evento) ou tira uma foto com um prop muito bacana.
É uma porta para outro mundo.
E para começar o papo que continua no próximo post, um resumo do que tivemos até aqui nestes nove anos:
O primeiro ano, o único que a gente escolheu, não ele, teve como tema Totoro. Foi uma festa muito parecida com as minhas de criança, porque a gente desenhou Totoros gigantes em papel kraft e recortou e colou nas paredes. Eu ainda tinha uma visão de decoração de festa que era em duas dimensões. Foi um exercício de pesquisa, e a gente teve cartões postais do Totoro com selos com a fotografia do pequeno como lembrança. (esses selos vc manda fazer no Correio e tem valor postal de verdade, e são incríveis.)
No ano seguinte, o tema foi Carros, da Disney. Legaaaal, um tema que a gente podia comprar as peças prontas! E com um tanto de isopor, eu descobri que a decoração podia se espalhar de um outro jeito, não só nas paredes. E nesse ano eu cometi uma aventura, porque tinha que ter uma: fiz um exercício de imaginação: como seria o macacão de piloto do Relâmpago McQueen se ele fosse pilotado por uma pessoa? E costurei eu mesma uma roupa de McQueen pro pequeno.
No terceiro ano, o tema foi Trem. E os primeiros paper crafts fizeram sua aparição. Também foi o ano em que a gente descobriu o EVA. No quarto ano, foi Carros de novo. E além de reaproveitar as peças que a gente tinha, a gente fez novas, e criou todo um lance de uso dos espaços, de "cantos" para as crianças (e os adultos) explorarem/aproveitarem.
Com cinco anos, adivinha? Trens outra vez! Mas dessa vez, o foco eram os trens do Thomas e Seus Amigos, a primeira aventura de coleção do pequeno. E a gente descobriu as coisas que você encontra na internet e imprime para fazer a decoração...
Seis anos. Backyardigans. Eeeeeeeee, tema que você encontra pronto! Mas foi o ano da Grande Aventura dos Cupcakes. Porque o André pediu que queria: a) um bolo azul b)cupcakes com confeitos coloridos. E a louca aqui começou a fazer os bolos de aniversário do filho. O que é um negócio muito aventuroso, mesmo.
Sete anos. E o recém descoberto nerdizinho pediu um aniversário do Super Mário. Na verdade, do Super André. E a gente transformou a chácara dos meus avós em uma fase de Mário, com moedas e caixas suspensas no ar e um Mário em 8bits feito de cupcakes... enquanto o pequeno estava vestido como Super André, Porque o Mário usa, vermelho, o Luigi verde, e o André azul e eles tem aventuras juntos. E eu fiz o macacão de Super André, a boina e ainda transformei ele em sprite 8bits tbm... Imprimimos a pia da cozinha naquele ano, e a festa tinha elementos de 30 anos de games e algumas coisas que achei na internet e são tão legais que eu tenho vontade de deixar montadas o ano inteiro em cima da mesa.
Ano passado, o tema foi Minecraft. E todo aquele know-how de papercraft festeiro foi elevado over 8000... porque foi basicamente o festival de papercrafts. E um painel pintado, com um cenário do jogo. Ano passado ele chegou com um vídeo tutorial do bolo que ele queria. Já que queria um bolo difícil (um bloco de TNT e tinha que ser em glacê de manteiga, não pasta americana), ele teve a gentileza de pesquisar por conta própria como era o melhor jeito de construir o bolo. (Preciso dizer: esse bolo foi uma das coisas mais prova de superação da minha vida. foi aterrorizante porque no meio do caminho eu realmente achei que não ia dar conta e não existia um plano B. Mas como falhar não era uma opção válida... eu dei conta, rs.)
E como é tradicional repetir temas, ele decidiu por fim que queria mais um aniversário de Minecraft. Que vai ser o assunto de outro post uma hora dessas, e por isso eu paro por aqui...
Existem muitas histórias para se contar sobre festas de aniversário aqui em casa. Muito antes das agora 9 festas do meu filho, existiram todas as minhas festas do tempo de criança. E existiu também uma conversa, uma conversa quase besta com um amigo e que ficou na memória porque foi a nossa primeira conversa "de adultos" (acho que uma das primeiras conversas de adulto que eu tive com qualquer um).
Essa conversa versava sobre a importância das festas e porque é que todo ano deveria ser comemorado. Sobre como é importante e perfeito e constrói memórias. Foi uma daquelas conversas que adolescentes tem porque depois de farejar o fim da infância, você sabe que algo está muito errado e precisa tomar providências. E naquela noite nós tomamos essa providência: festas eram importantes. Nós cresceríamos para fazer festas. Uma decisão que parece simples, mas que resume um modo de vida.
Os planos não foram como o esperado. Porque - e esse é um dos motivos para eu achar festas muito importantes- a vida sempre vai atropelar nossos planos.
O que nos leva para as minhas festas de criança. Meus pais -que foram pais bem cedo e por isso deviam ter claro essa urgência em celebrar o fato de estar vivo, só porque se esta vivo- sempre me fizeram as festas mais legais do universo. Que eram, para os padrões das festas que se vê por ai, coisas bem simples. Mas eram fantásticas por um motivo muito exato:
Meus pais levavam a sério as ideias malucas que eu tinha.
Graças a uma combinação de restrições orçamentárias, pais crafteiros e restrições inerentes da década mesmo, minhas festas eram únicas e em grande parte, feitas por eles. As decorações prontas não eram acessíveis como hoje. Aliás, festa temática era meio novidade. E eu era uma criança que lia muito mais do que devia e queria festas de temas não muito convencionais... ou que mesmo sendo comuns, não eram coisas que você encontrava feitas. Ok, até tive uma ou outra festa com temas comprados feitos (assim como meu filho também já teve), mas a organização da coisa feita em casa sempre deu o tom. Porque era pegar a coisa comprada e transformar numa ambientação que conseguisse o efeito X.
Minha mãe tem no seu curriculo coisas como carruagens da Cinderela, mapas do Duck Tales, Ursinhos Carinhosos, unicórnios e alienígenas. Culminando no Halloween com que comemorei meus 15 anos. E acrescente nisso os aniversários dos meus primos... e infinitos desenhos dos Cavaleiros do Zodíaco que ela produziu para a gente em uma época em que não se podia simplesmente abrir o Google e imprimir um monte de desenhos legais.
Levar a sério as ideias malucas que eu tinha pode ser desdobrado em algo um tantinho mais complexo, e que é o verdadeiro foco desse texto.
Nunca subestime o efeito de um unicórnio pintado em cartolina e por as caixas de som no quintal em uma criança de 8 anos de idade.
Na verdade, eram duas cartolinas bem maiores que essas que se compra em papelaria, porque meu avô era encadernador e papel aqui em casa sempre foi uma fonte supimpa de magia. E era um unicórnio E um pégaso, e acho que tinha purpurina neles - ou pelo menos eu me lembro de eles brilharem.
Mas o que eu via, parada na escada olhando as pessoas dançando, era isso:
Sério. Porque eu não era uma adulta e meus pais tiveram essa sacação genial. Eu-não-era-adulta-e-eu-não-pensava-como-adulta.
E para uma criança, cara, aquele unicórnio poderia muito bem estar voando sobre as pessoas que dançavam. Porque para mim, ele estava. Mesmo.
E o que diabos isso tem a ver com seu blog de coisas nerds, Sarah Helena?
Primeiro: o blog é meu, eu falo sobre o que eu quiser.
Segundo: imaginação, caras. Festas infantis são o passaporte carimbado para Nárnia. E é assim que se constrói tudo aquilo de fantástico que a gente gosta. Quando eu leio ou vejo um filme ou um seriado, e consigo me envolver ali até que o mundo externo cessa de existir, eu estou resgatando aquela menina de oito anos de idade parada na escada olhando O Baile - o verdadeiro, arquetípico Baile- ali, diretamente no meu quintal.
E qualquer cosplayer sabe beeeeeeem essa sensação, porque é isso que a gente faz: usa um gancho visual para "puxar" uma vivência inteira de alguém para o plano físico.
Não estou dizendo que você não deva investir nos detalhes em uma festa de criança. Na verdade, é o contrário: crianças percebem detalhes que os adultos não enxergam. Mas esse senso de maravilhamento que a gente consegue com as coisas que gosta, a criança experimenta com um tipo de detalhismo que não é o do mundo adulto. E é esse olhar que a gente precisa encontrar.
Então, quando eu estou pensando em uma festa (para o meu filho, para outra criança, para mim) eu penso muito nisso. Para quem eu estou fazendo a festa? É para os convidados? Para as fotografias? Ou para a pessoa que é dona da festa poder curtir um mergulho na toca do coelho e ir parar no País das Maravilhas?
E uma coisa não exclue a outra.Mas isso me dá um foco, um recorte. Um caminho por onde agir.
Eu quero que todo mundo ache bonito, porque eu quero que todo mundo consiga mergulhar junto com ele nas coisas pelas quais ele se fascina. Mas antes de mais nada, toda a construção cênica que faço é para o prazer dele, tendo em vista as coisas que ele considera importantes.
As festas que eu faço não são aquelas que vão ficar mais lindas na foto. Mas sempre são pensadas para que as crianças tenham espaços legais de curtição, que os adultos tenham um momento de resgate, e que o clima seja, no geral, de fantasia.
Então, tudo isso foi só para dizer que eu curto muito festa de criança. Que eu enxergo nelas a mesma coisa que eu vejo quando a gente vê um cosplay bem feito, quando tira uma foto sentado na cadeira de comando da Enterprise (mesmo estando no meio de um evento) ou tira uma foto com um prop muito bacana.
É uma porta para outro mundo.
E para começar o papo que continua no próximo post, um resumo do que tivemos até aqui nestes nove anos:
O primeiro ano, o único que a gente escolheu, não ele, teve como tema Totoro. Foi uma festa muito parecida com as minhas de criança, porque a gente desenhou Totoros gigantes em papel kraft e recortou e colou nas paredes. Eu ainda tinha uma visão de decoração de festa que era em duas dimensões. Foi um exercício de pesquisa, e a gente teve cartões postais do Totoro com selos com a fotografia do pequeno como lembrança. (esses selos vc manda fazer no Correio e tem valor postal de verdade, e são incríveis.)
No ano seguinte, o tema foi Carros, da Disney. Legaaaal, um tema que a gente podia comprar as peças prontas! E com um tanto de isopor, eu descobri que a decoração podia se espalhar de um outro jeito, não só nas paredes. E nesse ano eu cometi uma aventura, porque tinha que ter uma: fiz um exercício de imaginação: como seria o macacão de piloto do Relâmpago McQueen se ele fosse pilotado por uma pessoa? E costurei eu mesma uma roupa de McQueen pro pequeno.
No terceiro ano, o tema foi Trem. E os primeiros paper crafts fizeram sua aparição. Também foi o ano em que a gente descobriu o EVA. No quarto ano, foi Carros de novo. E além de reaproveitar as peças que a gente tinha, a gente fez novas, e criou todo um lance de uso dos espaços, de "cantos" para as crianças (e os adultos) explorarem/aproveitarem.
Com cinco anos, adivinha? Trens outra vez! Mas dessa vez, o foco eram os trens do Thomas e Seus Amigos, a primeira aventura de coleção do pequeno. E a gente descobriu as coisas que você encontra na internet e imprime para fazer a decoração...
Seis anos. Backyardigans. Eeeeeeeee, tema que você encontra pronto! Mas foi o ano da Grande Aventura dos Cupcakes. Porque o André pediu que queria: a) um bolo azul b)cupcakes com confeitos coloridos. E a louca aqui começou a fazer os bolos de aniversário do filho. O que é um negócio muito aventuroso, mesmo.
Sete anos. E o recém descoberto nerdizinho pediu um aniversário do Super Mário. Na verdade, do Super André. E a gente transformou a chácara dos meus avós em uma fase de Mário, com moedas e caixas suspensas no ar e um Mário em 8bits feito de cupcakes... enquanto o pequeno estava vestido como Super André, Porque o Mário usa, vermelho, o Luigi verde, e o André azul e eles tem aventuras juntos. E eu fiz o macacão de Super André, a boina e ainda transformei ele em sprite 8bits tbm... Imprimimos a pia da cozinha naquele ano, e a festa tinha elementos de 30 anos de games e algumas coisas que achei na internet e são tão legais que eu tenho vontade de deixar montadas o ano inteiro em cima da mesa.
Ano passado, o tema foi Minecraft. E todo aquele know-how de papercraft festeiro foi elevado over 8000... porque foi basicamente o festival de papercrafts. E um painel pintado, com um cenário do jogo. Ano passado ele chegou com um vídeo tutorial do bolo que ele queria. Já que queria um bolo difícil (um bloco de TNT e tinha que ser em glacê de manteiga, não pasta americana), ele teve a gentileza de pesquisar por conta própria como era o melhor jeito de construir o bolo. (Preciso dizer: esse bolo foi uma das coisas mais prova de superação da minha vida. foi aterrorizante porque no meio do caminho eu realmente achei que não ia dar conta e não existia um plano B. Mas como falhar não era uma opção válida... eu dei conta, rs.)
E como é tradicional repetir temas, ele decidiu por fim que queria mais um aniversário de Minecraft. Que vai ser o assunto de outro post uma hora dessas, e por isso eu paro por aqui...
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Olha, eu tou no Bonus Stage!
Enquanto eu preparo a terceira festa com temática gamer pro meu filho e tento controlar a vontade de voltar pro Dragonfall que eu tou aguada para terminar, dou uma passadinha correndo aqui para dizer que eu fui citada em uma matéria como uma mãe gamer no Bonus Stage, clique aqui para ler.
Bateu um orgulhinho...
Agora de volta para a produção de creepers em massa!
"E para as mamães gamers, o estereótipo de jogos como um empecilho ou distração que dificulta a educação dos filhos está mais que ultrapassado. “A gente tem muito forte a coisa do gamification. Cai um dente, ele faz alguma coisa que antes não sabia, terminamos em tempo recorde uma obrigação da escola, e um olha pro outro e já fala ‘achievement unlocked‘: (insira aqui um achievement inventado na hora, como ‘Rei da Matemática, 10 exercícios em x minutos’). Eu uso conceitos de gamification na educação dele, porque funciona."
Bateu um orgulhinho...
Agora de volta para a produção de creepers em massa!
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