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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Shadowrun Returns

Eu nunca fiz a review de Shadowrun Returns que eu prometi que faria. Agora estou jogando a expansão, Dragonfall, e vou tomar vergonha e falar dos dois. Primeiro do Returns, e assim que terminar Dragonfall, dele também.




Em primeiro lugar eu preciso explicar que eu sou apaixonada pelo cenário de Shadowrun. RPG, livros, games, bonecos, Shadowrun é algo que eu tenho fascínio. E se tudo der certo, vamos ter uma postagem mais geral sobre porque eu gosto tanto, no dia 14 de junho.

De forma específica, Shadowrun é uma distopia futurista cyberpunk, com a adição de magia. Essa magia se manifesta de várias formas: temos magos e xamãs, e temos raças "metahumanas": elfos, orcs, anões, trolls. E Dragões, poderosos, inumanos e agora, empresários bilionários.

O conceito do universo de Shadowrun é de que o mundo passa por picos de energia mágica, e depois essa energia vai diminuindo, até ficar dormente, e então começa a subir de novo. E dessa vez, calhou de que essa subida se desse em um momento de alta tecnologia, capitalismo, grandes corporações, matriz (internet via imersão, como em Neuromancer). Nesse cenário, você é um shadowrunner: à margem da lei e da sociedade, fazendo o serviço sujo do universo para sobreviver. Shadowruns são como são chamados esses serviços que você presta para a sociedade respeitável. Você é um anti-herói, provavelmente, e um bandido mercenário, na consequência.

Shadowrun Returns foi financiado via crowd funding. Não cheguei a participar por falta de grana na época, mas acompanhei ansiosa o processo. A Harebrained Schemes, desenvolvedora do jogo, fez um trabalho de convencimento bonito de um retorno mesmo, de um jogo que era muito amado. E com certeza foi o jogo que eu fiquei mais doente para ver chegar na minha conta Steam.

E valeu cada segundo. É um game de rpg "a moda antiga". Me sinto lendo um daqueles livros-jogo onde cada uma das suas respostas te leva para diferentes resoluções. O sistema de combate por turno além de satisfazer minha mente rpgística, torna o jogo muito mais justo para a minha disgrafia, já que o resultado do combate depende de raciocínio e sorte, não habilidade manual.

A história é muito boa, coesa, os NPCs são cativantes. O desenvolvimento é muito textual: a maior parte das coisas são descritas, o que torna o jogo pouco dependente da imagem (exceto pelas resoluções de combate, que me falta total o conhecimento de como seria bom para quem não enxerga, acho que seria um jogo facilmente adaptável para ser inclusivo para deficientes visuais, e se você for deficiente auditivo, não vai ter problema nenhum em acompanhar, o som é completamente dispensável).

As citações a outros jogos ou personagens icônicos de Shadowrun são deliciosas para quem curte o cenário. O primeiro runner que você encontra é o personagem principal do jogo Shadowrun de SNES. E ainda melhor: ele está dormindo dentro de uma gaveta de necrotério, uma citação ao início do jogo clássico.

Durante o decorrer do jogo, outros personagens icônicos vão aparecer. Dodger e Harlequin em particular me fizeram ter um treco, depois outro treco, depois mais trecos ainda.


Exceto pelo fato do poder de fogo deles ter sido reduzido de forma sem sentido, o que é bem inconveniente. Se você vai me deixar ter na party um elfo do quarto mundo com milhares de anos de idade, ou um cara que é reconhecido como um dos melhores tecnautas(deckers) de Seattle e além, por favor, deixe o jogo ficar desequilibrado, mas mantenha o realismo disso. E o Dodger, além de estar com um ícone loiro (o cabelo dele é branco, aliás, o ícone foge total da descrição dele, a ausência do mohawk branco sendo só um detalhe disso - e da capa do Shadowrun original), não tem nenhuma fala: quando a principal marca do personagem é seu jeito de falar, isso é para lá de triste. (são meus dois personagenms preferidos no universo de SR inteiro, eu fiquei muito muito muito feliz de ter eles lá, mas nem tudo são flores). Pelo menos o Harlequin tem com certeza as falas mais fodas do jogo, merecidamente.

A movimentação do jogo dá muito a sensação de mapa de miniatura. Não só pelo movimento dos turnos em si, mas porque os prédios, os objetos e o desenho do chão tem a estrutura daqueles tiles bacanas que a gente usa quando quer fazer bonito na mesa de jogo.

O cenário não te deixa tão solto quanto eu gostaria. Nenhum problema com a linearidade, mas em alguns casos, não importava que opção você seguisse, as reações não mudavam, ou você podia voltar atrás e testar todas as formas de falar com alguém.



Forma geral, o jogo é muito empolgante. As possibilidades de construção do personagem são muito amplas, e suas habilidades mudam suas interações com o cenário. Você pode ser xamã, mago ou adepto, em uma linha mais mística, sendo o xamã o cara que lida com os espíritos, o mago quem usa magia arcana/hermética, e o adepto é o cara que usa magia para bater nos outros a lá street fighter, ou samurai urbano, decker e rigger, em um aspecto mais tecnológico. O samurai urbano é o homem de armas do cenário, o decker é quem se enfia na matriz, e rigger é a pessoinha com os drones. E não está satisfeito com esses arquétipos? Comece do zero e misture. Você pode ser humano, elfo, anão, orc ou troll. Ser menino ou menina não faz diferença além da visual. Seu personagem vai ganhando pontos de karma para gastar na evolução, e com o tempo você vai juntando dinheiro das shadowruns que faz e consegue ir juntando um equipamento legal.

Rigger é sempre minha escolha óbvia. Mas como era a primeira vez que ia jogar, usei o arquétipo inicial do samurai urbano e lá pelo meio do jogo virei xamã para testar as funcionalidades de magia.

A campanha gira em torno de Seattle, o cenário base de SR, em 2054 (confirmar data), quando você e chamado para vingar a morte de um antigo camarada - e receber uma grana por isso. As coisas não são tão simples assim, e entre seu envolvimento com outras missões para ganhar uns trocados e seu envolvimento com o submundo e as amizades que vai desenvolvendo (ou não), você se vê diante de um assassino serial. Um assassino serial que é o menor dos seus problemas, eu te garanto.

Eu recomendo muito o jogo, tanto para quem gosta de Shadowrun já, que vai se divertir extra com os acontecimentos, facções, políticagens e personagens citados (embora ele não respeite 100% o cânon em relação a esses personagens), quanto para quem quer entender o cenário a partir de zero conhecimentos. Sinceridade, eu recomendo muito para quem quer conhecer Shadowrun que jogue, porque vai ser um bom começo. Uma visita orientada, digamos.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Rabiscos depois de terminar de ler a Trilogia do Sprawl

Poucas coisas me fazem desligar meu computador. Basicamente, só livros me fazem desligar isso aqui.

Entendam: não é a toa que eu gosto de literatura cyberpunk. Eu sou o tipo de pessoa que estaria na fila de voluntários para abrir um buraco no crânio e colocar um datajack se eles dissessem hoje que era uma possibilidade. Não sou um cowboy, um jóquei de console. Nunca vou ser mais que um usuário bem informado. Mas sou apaixonada pela coisa desde que sentei na frente daquele computador e uma poeta fantástica e com uma loucura sutil que poderia ter saído de um romance desses sorriu para mim e disse "Divirta-se".

Era 1996 e eu ganhei a internet. Em um ano onde tudo que importava foi roubado de mim e eu passei a me alimentar de vazio, eu escrevi em uma tela escura o que seria meu primeiro nickname e passei a habitar um universo. Então, é, eu não desligo meu computador a toa. Eu não fico longe da rede, eu não fico longe dos meus programas e não fico longe do som do cooler e da vibração sutil de uma máquina se eu puder evitar.

Mas livros. Cara, certos livros são o mais próximo possível que existe de se plugar na Matriz, hoje. Porque eles são ilusões sensoriais. São construtos, são alucinações consensuais. Só que são um ponto fixo no tempo. Um dia, nós vamos poder mergulhar em dados, mas por enquanto, o máximo que temos é um retrato pausado do que seria isso.

Fileiras de letras. A rede não é mais que isso, sabe, quando você olha de perto. Mas ao contrário da lógica de programação, os livros estão na linguagem que eu domino.

Li Neuromancer pela primeira vez muito tempo atrás. Não sei precisar ao certo, mas foi uma tarde quente e eu lembro de acabar com o maço de cigarros, acendendo um a cada vez que alguém acendia um no livro e muitos mais a cada momento de tensão.

Difícil explicar o fascínio que aquilo me trouxe, o arrepio frio que correu pela minha espinha e como eu sentei na janela olhando o cipreste se mover lento com o vento, fumando um último cigarro enquanto deixava a paixão que senti por Molly Millions evaporar no ar.

Hoje é noite e o ar está frio e parado, e a neblina me faz pensar na frase que abre Neuromancer. O cipreste está morto. Nenhum vento agita a pitangueira, mas meu olhar é tomado pelos fios, dezenas de fios, que correm no alto da rua, enchendo meu campo de visão.

Mais uma vez, deixo o fantasma de Molly evaporar no ar enquanto tento retomar contato com a realidade.

Ontem li Count Zero, e é provável que tenha sido um dos melhores livros que eu li na minha vida. Hoje, li Monalisa Overdrive e fechei a trilogia.

Difícil explicar porque demorei tanto tempo para ler os dois. Na real, eu tinha um medo cagado de que aquela feitiçaria que Neuromancer fez comigo fosse quebrada. Que os livros não fossem bons o bastante, sabe.

Ai os livros quase cairam em cima de mim e eu li os dois essa semana.

Deixa eu dizer uma coisa: a gente não deve ler livros como quem usa uma dose de drogas estimulantes. Mas é o que eu faço. Leio com uma voracidade obcessiva. Leio muito rápido e mergulho fundo, o que causa essa reação depois de um livro intenso.

Pior quando são assim, um depois do outro.

Ou seria melhor?


Eu poderia tentar fazer uma análise fria da obra do Gibson e de todos os motivos pelo qual eu gosto muito dela. Que envolvem shurikens, a criação de um universo profético, personagens femininas com um grau de complexidade admirável e loas.

Mas nesse momento, eu só fico desejando trodos nas minhas têmporas, para eu poder escrever mais rápido, desligada do ambiente em torno, os dedos dançando no teclado do console. Ops, é o que eu estou fazendo, não é? Escrevendo mais rápido do que posso pensar em editar, tentando capturar: uma sensação.

A sensação de ter lido algo que parece derreter seu cérebro e seus sentidos.

Não tenho trodos ou sinsense, mas faço o que posso com as ferramentas a mão.

Um livro.  Um maço de cigarros. Um isqueiro de metal vermelho, e a tela escura com letras em fósforo verde do meu editor de textos. (sim, eu sou dessas. meu editor de textos remete de todo modo possível ao meu velho e inigualável wordstar que eu rodava no DOS até o dia em que não consegui mais uma impressora que fosse compatível.)


 Fico imaginando se vou reler esses livros do mesmo jeito que fiz com Neuromancer, até ter as palavras gravadas na memória.

é.

Apago o cigarro no cinzeiro prateado, as bordas com pequenas bolhas de ferrugem. Copio o texto para jogar na plataforma do blog.

Apago as luzes da varanda, vendo o título dos livros nas capas escuras iluminadas pelo sódio das lâmpadas da rua.