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sexta-feira, 27 de março de 2015

Spoilers de todos os tipos, decepções com finais e coisas do tipo

As vezes, quando estou lendo, abro o livro no final, e leio a última página.

A última página não te fala muito do climax. A última página é um dez de espadas. Qualquer coisa que tinha que acontecer já foi, agora Inês é morta, é aquele é só o último fio do texto.

Forma geral, finais me decepcionam.

Então, já sabendo que a única definição para o final de Mass Effect é "uma bosta", eu fui lá e li o final: a última decisão de Shepard.

E é mesmo uma bosta de níveis galácticos esse final.



Mas volto aos livros.

Ler a última decisão de Shepard foi como abrir a última página do livro e ler, sem contexto algum, aquele trecho. Minha ansiedade fica aplacada, porque eu estou livre do final. Faço isso com coisas que gosto muito, que me deixam com palpitação. E que eu não tenho pressa nenhuma de chegar no fim, mas sei que sou obcessiva demais para conseguir ler/jogar/assistir devagar. E eu quero aproveitar cada segundo daquela imersão, quero me perder naquele cenário, e o final não é tão importante assim. Porque nesses casos, o que importa é o caminho, o percurso que vou fazer para chegar até o fim, que normalmente é só o prenúncio da imensa ressaca que vou sentir quando terminar.

A trilogia Segredos do Poder, de Shadowrun, foi assim. Eu não queria chegar no final (que não é ruim, é bem bom, mas podia ser menos corrido). Não queria dizer adeus a Dodger e Twist de jeito nenhum. Eu estava apaixonada por eles. E pela Heart. E então eu fui lá, e li as últimas duas páginas. E voltei a ler, degustando a história com menos ansiedade, sabendo que no final, as coisas iam entrar nos eixos.

As vezes leio e perco a ansiedade por saber que o final é uma bosta e que só a fanfic salva.

Isso não significa que eu não me importe com spoilers. Muito pelo contrário, eles me irritam profundamente quando eu não procurei por eles e eles caem no meu colo. Tive um de Black Sails que me deixou muito, muito brava. Tive uns de Malévola que fizeram com que desistisse de ver o filme, porque eu simplesmente já sei demais para conseguir, nesse momento, conseguir curtir alguma coisa.

E não quero spoilers de Mass Effect, porque eu quero me virar para dar conta do processo, do meu envolvimento narrativo com o jogo. Eu passei por Virmire sem spoilers. E foi fantástico, emocionante, forte e incrível, e não quero perder isso.

Esse é um os casos onde sua milhagem pode variar. Tem gente que abomina todo e qualquer spoiler. E está certo. Tem gente que aceita todo tipo de spoiler, e está certo também. E tem eu e muita gente ai no meio que considera ok alguns spoilers, mas outros não. Acho que o grande ponto é: se eu procurei uma informação, voluntariamente, que bacana. Mas quando eu tenho uma informação que eu não queria esfregada na minha cara, é chato pra caramba.

Então não seja babaca e não poste spoilers. Nem piadas com coisas que aconteceram no episódio da semana. Não importa o quanto você esteja empolgado, não custa colocar um alerta de spoiler.

E se você se distraiu e soltou um spoiler, peça desculpas. Assuma que fez cagada. Eu já fiz isso. E olha, nem doeu pedir desculpas e me policiar mais.



É raro que eu goste do final de alguma coisa. Red Dead Redemption também tem um final cocô.

Na maioria dos livros, é decepção pura e simples. Um décimo de "eu faria diferente" e nove décimos de estar de saco cheio de moralismo, machismo, racismo, clichê. Especialmente o moralismo, no caso dos finais de histórias, é um negócio que dói na alma de tão frequente.

Esse moralismo também atinge games e filmes e seriados e quadrinhos. Seriados não moralistas é algo que eu ainda tou pra ver. Mesmo os que tem fama de "politicamente incorreto" são moralistas. Filmes sempre caem nessa. Redenção só se dá pela morte, mulheres que transam tem que casar e ter filhos, o destino dos filhos é seguir os passos dos pais, etc, etc etc...

Soma-se a isso o fato de que metade para mais dos finais são corridos. A história tem um passo até chegar perto do fim, ai rola um surto e tudo vira resumo para acabar logo, correndo. Coisas que indicavam uma resolução lenta se resolvem por magia. Pesquisas de anos se completam em uma semana. E o ritmo narrativo se perde para virar videoclip, corte em cima de corte de cena, frenético. Mesmo nos livros. Mesmo nos quadrinhos.

E foi assim que eu aprendi a gostar das coisas pelo percurso e não pelo final.


(*Gostaria de dizer que a trilogia de Jogos Vorazes é uma excessão. O final foi tão ruim, mas tão ruim, tão moralista, desnecessário, babaca, escroto, que eu simplesmente peguei raiva da série toda. Mas isso é a exceção que comprova a regra.)


Eu sou professora de arte. Na faculdade fui martelada até introjetar com o conceito de que o produto final, por mais importante que seja só tem valor como parte de um processo. Esse processo criativo é meu foco de trabalho. Então quando eu me envolvo em narrativas, é o percurso, o processo de desenvolvimento da trama, que me envolve e me dá prazer.

Gosto de pensar em como cheguei até lá. Em todas as sidequest que dei conta, toda a construção de cenário, tudo de incrível que vimos acontecer. Todos os personagens que eu vi se desenvolverem.

Sejamos realistas, quais as chances de eu gostar do final de As Crônicas de Gelo e Fogo?

O final de Fronteiras do Universo, que eu chorava de soluçar e que é perfeito mas é horrível. O final de Senhor dos Anéis, quando você sabe que o mundo de todo modo está condenado à tristeza, por mais que a gente mantenha a escuridão afastada. O final de tantos livros que eu olhei e pensei "é assim?"

Mas tudo bem. Porque o caminho que nos levou até aquele final é que importa. O que aprendemos e nos divertimos e conhecemos. Ninguém tira isso de nós, nenhum final bosta vai mudar todas as dezenas de horas onde me diverti jogando.

E é isso. 2/3 de Mass Effect jogados, mais ou menos, contando as horas que já joguei. E ansiosa, não pelo final, mas por completar o jogo para poder começar de novo com outra classe, e fazer a trilha de Renegade.

Porque não importa o que façam com o John Shepard oficial. Minha história é só minha. Minha história com o jogo é pessoal. Me pertence. E na minha hstória, consigo pensar em finais plausíveis mito menos bostas.





quinta-feira, 26 de março de 2015

Primeiras impressões - Mass Effect

Preciso dividir minha empolgação. Sabe,  eu sempre pego as coisas bem depois,  jogo as coisas com anos de atraso, e ok. Minha lista de jogos para esse ano não tem lançamentos.
Só que normalmente,  por mais que eu goste de um jogo,  a diversão começa e termina dentro dele.  Não é algo que me mobilize. Mesmo Red Dead Redemption,  que é a menina dos meus olhos,  eu não sai atormentando as pessoas sobre o quão fantástico é tudo.  É maravilhoso,  mas é o jogo e pronto. 
Até um mês atrás,  eu não me imaginaria parte do fandom de um jogo.
Ragabash comprou a trilogia.  Promoção,  ele achou que eu ia gostar também,  sei lá os motivos do coiote,  mas ele esfregou a caixa do jogo na minha cara.  Aí o Vlá me questionou: o que eu estava fazendo que não estava jogando ainda? De acordo com o Vlá,  que já me evangelizou para Gears of War,  eu tinha "o dever moral e cívico"  de jogar ME. Por fim,  o Hell disse que era Dragon Age no espaço. Ok,  garotos,  vocês me convenceram.
O grande ponto de Mass Effect é que o cenário é muito bem construído.  O background da história é rico. Os personagens tem profundidade,  as relações entre vc é os NPCs empolgam,  e a construção do universo te convence. Não só a história é muito boa, as subtramas são muito bem pensadas. O jogo tem um dos melhores cenários de scifi fi que eu já vi.  E embora como tudo,  ele tenha questões problemáticas,  tem uma quantidade decente de personagens femininas,  e você pode escolher que o Shepard seja A Shepard.
Jane Shepard é uma mulher negra no meu jogo.
Apesar de não ser assim super inovador,  Mass Effect costura as coisas muito bem. Ele é coeso. O technobabling é funcional. O tal do mass effect justifica trocentas coisas diferentes,  mas te convence.  Ler as entradas enciclopédicas que você vai habilitando,  e as descrições dos planetas,  mesmo que não mudem nada na trama do jogo,  enriquecem a experiência e formam um canon de informações que pode alimentar spin off e fanfiction e RPG de mesa para uma vida.
E a parte opera em space opera... Os romances. As amizades, as citações... As conversas com os NPCs são tão legais quanto as cenas de combate.  Você ama e odeia junto com Shepard.  Existe uma tensão nas escolhas,  porque muitas vezes são escolhas morais complexas,  que exigem um envolvimento com a trama.  Eu estava quase chorando em Virmire.  Cada vez que escrevo effect o Swift Key oferece Garrus Vakarian como próximas palavras,  rs,  porque o Garrus é amor demais gente. Sou Shakarian até morrer.
Sim, tem nome para os shipping mais queridos. Sim,  o jogo tem um fandom que está bem além da média dos jogos.
Não acho que tenha muito pra dizer do jogo que você não ache alguém que já escreveu. Afinal,  o jogo existe a anos. Mas é lindo demais. É empolgante. É um universo ficcional rico,  complexo e coerente,  que merecia ainda mais atenção dos fãs de ficção científica.
E eu vou escrever um bocado inspirada em Mass Effect,  tenham paciência.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Uma carta para o Arauto do Caos: A compra da Mojang pela Microsoft

Oi filho.

Isso aqui é uma carta aberta. Quer dizer que eu estou escrevendo para você, mas também estou escrevendo para postar no meu blog e explicar para outras pessoas aquilo que eu penso sobre isso. Sei que você passou a tarde jogando, e não vendo seus canais do YouTube e as notícias de games, e quero estar pronta para responder suas perguntas quando elas chegarem. Quando você ler que a Microsoft comprou a Mojang por mais de 2 bilhões de dólares. Por isso eu escrevo.

Minecraft entrou na nossa vida uns três anos atrás, né. O que eu me lembro mais é de perguntar o que você queria ganhar no Dia das Crianças, e você responder: uma licença do Minecraft. Lembro de você me explicar sobre a importância de ter o jogo oficial e não uma cópia pirata porque a Mojang era um pequena empresa na Suécia e não uma das gigantes dos games, e que por isso a coisa certa a fazer era pagar pelo jogo.

Eu me senti muito orgulhosa de você naquele dia. Porque mesmo a maioria dos adultos não tem muito claro na mente a diferença entre uma empresa gigante e as pequenas produtoras de games. Mas você compartilha meu amor por games indies, e entende que existe um universo enorme de formas diferentes de se fazer e jogar games. E por causa disso, eu quis jogar Minecraft. E me apaixonei pelo jogo, assim como você.

E agora, essa empresa que te fez descobrir esse mundo foi vendida para uma das "majors", uma das grandes companhias não só de jogos, mas os caras que fazem o Windows e tudo isso. E você já deve ter percebido que para a maioria das pessoas, falar Microsoft significa falar "os caras maus".

Particularmente, a mamãe não vê as coisas tão preto e branco. Na verdade, a mamãe tem mais contra a Apple hoje em dia do que contra a Microsoft, por muitos motivos que não vem ao caso. Todas as grandes empresas tem atitudes complicadas, e nem sempre fazem as melhores escolhas para os usuários. Acima de tudo, empresas são feitas por pessoas: elas tem como objetivo conseguir lucro, ganhar dinheiro, e existem muitos jeitos de fazer isso. Algumas pessoas são mais éticas. Outras, fazem coisas questionáveis, erradas, algumas até fazem coisas ilegais - ou pelo menos imorais. Sabe quando você reclama sobre as propagandas, sobre como propagandas te incomodam? As empresas usam as propagandas para vender ideias, conceitos, sentimentos, que associam aos produtos. Quando fazem a propaganda de um brinquedo, não estão vendendo só o brinquedo. Estão vendendo a ideia de "diversão", de "poder", de "alegria". Quando fazem a propaganda de um computador ou console, celular ou tablet, estão vendendo a ideia de que "olha, pessoas com a personalidade mais legal são as que compram esse produto" - e você sabe que isso não é verdade.

O que a Microsoft está comprando não é só a Mojang: é a influência da Mojang sobre milhares de crianças que como você, mergulharam no mundo dos games a partir da experiência com Minecraft. Eles querem poder influenciar vocês, os jogos que vão pedir para comprar enquanto ainda dependem dos pais para comprar jogos, e mais para frente, quando tiver seu próprio dinheiro e comprar seus próprios jogos, influenciar também o que vocês vão comprar. Sim, eles também querem comprar a opinião dos adultos que jogam Minecraft. Mas para as empresas, comprar a opinião de um adulto é mais difícil. As crianças e os adolescentes ainda estão conhecendo o mundo, mudam de opinião mais fácil - a gente já conversou sobre isso, sobre o impacto das propagandas. Foi assim que a mamãe começou a fumar, por exemplo. Foi assim que por muito tempo a mamãe achava que de todos os gibis do mundo, só os da Marvel eram legais. Porque eu era adolescente e todas aquelas propagandas me influenciaram. Óbvio que crianças e adolescente tem opinião: as propagandas me diziam que video-game e quadrinhos e espadas eram coisas só de menino, e eu nunca aceitei isso, eu sempre soube que isso era mentira. Assim como você fica irritado com as propagandas. Mas muita coisa ainda gruda na nossa cabeça, até sem a gente perceber, e é isso que eles querem comprar.

Só que existe uma coisa que nenhuma empresa vai poder comprar: a sua história pessoal com Minecraft. O significado que o jogo tem para você e só para você, como pessoa única que é. A Microsoft pode ser dona da Mojang, mas não pode ser dona do que você aprendeu com Minecraft: não só os conhecimentos (que são muitos), mas a forma de pensar que você aprendeu.

Sua lista de jogos no Steam ainda vai ter mais jogos de pequenos desenvolvedores do que de grandes empresas, assim como a minha. Você entendeu que existem muitas formas de esperiência com os games: no computador, no nintendo, no playstation, no x-box, nos portáteis ou no tablet, e que elas são formas diferentes, nem melhores, nem piores.

Você vai continuar achando a jogabilidade, a diversão e a história de um jogo mais importantes do que os gráficos. Vai continuar usando os jogos para exercitar sua imaginação, buscando jogos onde customização tenha espaço, onde possa criar suas próprias fases, onde existam mods divertidos. Vai continuar buscando jogos sand-box.  

Claro que essa é uma mudança um pouco assustadora: não dá para saber o que uma empresa grande vai fazer com o jogo que a gente ama tanto. Mas eu tenho um palpite: pelo menos por enquanto, não vai mudar nada, exatamente porque eles querem conquistar os jogadores, querem que eles gostem e confiem na Microsoft, e não é mudando tudo do dia para a noite que vão conseguir. Depois, mudanças virão, talvez.

Mas lembra quando você começou a estudar sobre Street Fighter? Lembra de como Street Fighter mudou com o passar do tempo? Não só o visual, ou a jogabilidade, mas como novas coisas foram sendo criadas, como as histórias foram se expandindo, como o mundo do jogo foi ficando maior?

O Minecraft que a gente joga hoje não é o que a gente jogava três anos atrás. Não estamos discutindo apaixonadamente tudo de novo da atualização 1.8? Reaprendendo certas coisas, aproveitando as novidades? Ainda não reaprendi a lidar com o novo jeito dos mapas e acho melhor o jeito antigo. Mas ao mesmo tempo, tem muitas coisas legais. A gente sempre vai ter versões diferentes de jogos, algumas vezes vamos gostar, outras não. Mas é assim que as coisas acontecem. Jogos vivem em constante evolução. Quando você for mais velho e puder jogar Shadowrun, eu vou te mostrar isso direitinho, porque ele é um ótimo exemplo. 

E é importante lembrar outra coisa: o Notch não vendeu a Mojang só por causa do dinheiro. Minecraft ficou muito grande. Muita gente joga. Você se lembra de todas as nossas conversas sobre porque você não pode jogar jogos multiplayer online? Porque a gente não tem como saber quem são as pessoas ali, e nem todas as pessoas são legais? Nem todo jogador de Minecraft é como você, que admira o Notch e os outros criadores do jogo e entende que eles são pessoas e tem a vida deles. Algumas pessoas esquecem disso, e falam coisas duras e ruins. Coisas que incomodam e machucam. E isso tem deixado o Notch muito chateado. Ele quer fazer outras coisas, coisas menores, diferentes. É chato ficar fazendo a mesma coisa para sempre: Minecraft é legal, mas você não ia querer jogar só ele, e nunca mais nenhum outro jogo, né?

A mesma coisa é para os fundadores da Mojang. Eles querem fazer outras coisas, experimentar coisas diferentes, sem ter a internet inteira cuidando da vida deles, falando coisas inconvenientes. Por esse lado, vai ser muito bom ter esses caras de novo programando jogos que eles estão com vontade de fazer, sem ter que se preocupar com Minecraft, que tem outras pessoas cuidando dele. E em uma empresa pequena, como você já percebeu, é que surgem as coisas mais inovadoras e as ideias mais malucas, e com o tamanho que o Minecraft tomou, estava cada vez mais difícil para eles se dedicarem a criar coisas novas e diferentes. Para eles, é melhor deixar essa fase da vida para lá, e começar coisas novas, e a gente também precisa ter essa empatia: o que é melhor para eles, que criaram o jogo, mesmo que não seja o melhor para quem joga, precisa estar na nossa mente.


Então, é isso. É assustador? Com certeza. As empresas grandes fazem coisas ruins e questionáveis? Fazem, sim, mas também fazem Little Big Planet, que você adora. Então, não precisa ficar chateado com isso. Talvez alguns dos youtubbers que você gosta não gostem dessas mudanças. Mas você também já ouviu a mãmae e o papai terem opiniões diferentes sobre um mesmo jogo ou console, não viu? Quando a DC lançou os Novos 52 e mudou todo o universo dos quadrinhos dela, a mamãe ficou bem brava, e todo mundo me ouviu reclamar. Mas algumas histórias me surpreenderam por serem bem legais e hoje em dia os desenhos animados de heróis que mais gosto são da DC. O pessoal que você assiste e lê também vão passar pela mesma coisa. E ao mesmo tempo, do mesmo jeito que a gente não precisa se deixar influenciar pelas propagandas, não precisamos concordar com tudo que lemos e assistimos só porque gostamos de outras coisas que essas pessoas gravaram ou escreveram. As vezes, uma pessoa pode dizer algo muito legal em um dia, e ser um completo babaca em outro. E ok, a gente vai encontrar sempre novas pessoas para ler e assistir e eu tenho certeza que logo você também vai estar postando sua opinião por ai.



Acima de tudo, vou estar aqui para te explicar o que for preciso. E sempre, sempre, nossa história é só nossa, e nenhuma empresa, grande ou pequena, vai ser dona daquilo que sentimos e fazemos com o que experimentamos nos jogos. Isso você pode ter certeza: a sua experiência com um jogo, com um livro ou uma história em quadrinho, ou com um filme, ou desenho, é só sua e ninguém jamais vai tirar isso de você.


Um beijo, com amor,


Mamãe.


quinta-feira, 8 de maio de 2014

Shadowrun Returns

Eu nunca fiz a review de Shadowrun Returns que eu prometi que faria. Agora estou jogando a expansão, Dragonfall, e vou tomar vergonha e falar dos dois. Primeiro do Returns, e assim que terminar Dragonfall, dele também.




Em primeiro lugar eu preciso explicar que eu sou apaixonada pelo cenário de Shadowrun. RPG, livros, games, bonecos, Shadowrun é algo que eu tenho fascínio. E se tudo der certo, vamos ter uma postagem mais geral sobre porque eu gosto tanto, no dia 14 de junho.

De forma específica, Shadowrun é uma distopia futurista cyberpunk, com a adição de magia. Essa magia se manifesta de várias formas: temos magos e xamãs, e temos raças "metahumanas": elfos, orcs, anões, trolls. E Dragões, poderosos, inumanos e agora, empresários bilionários.

O conceito do universo de Shadowrun é de que o mundo passa por picos de energia mágica, e depois essa energia vai diminuindo, até ficar dormente, e então começa a subir de novo. E dessa vez, calhou de que essa subida se desse em um momento de alta tecnologia, capitalismo, grandes corporações, matriz (internet via imersão, como em Neuromancer). Nesse cenário, você é um shadowrunner: à margem da lei e da sociedade, fazendo o serviço sujo do universo para sobreviver. Shadowruns são como são chamados esses serviços que você presta para a sociedade respeitável. Você é um anti-herói, provavelmente, e um bandido mercenário, na consequência.

Shadowrun Returns foi financiado via crowd funding. Não cheguei a participar por falta de grana na época, mas acompanhei ansiosa o processo. A Harebrained Schemes, desenvolvedora do jogo, fez um trabalho de convencimento bonito de um retorno mesmo, de um jogo que era muito amado. E com certeza foi o jogo que eu fiquei mais doente para ver chegar na minha conta Steam.

E valeu cada segundo. É um game de rpg "a moda antiga". Me sinto lendo um daqueles livros-jogo onde cada uma das suas respostas te leva para diferentes resoluções. O sistema de combate por turno além de satisfazer minha mente rpgística, torna o jogo muito mais justo para a minha disgrafia, já que o resultado do combate depende de raciocínio e sorte, não habilidade manual.

A história é muito boa, coesa, os NPCs são cativantes. O desenvolvimento é muito textual: a maior parte das coisas são descritas, o que torna o jogo pouco dependente da imagem (exceto pelas resoluções de combate, que me falta total o conhecimento de como seria bom para quem não enxerga, acho que seria um jogo facilmente adaptável para ser inclusivo para deficientes visuais, e se você for deficiente auditivo, não vai ter problema nenhum em acompanhar, o som é completamente dispensável).

As citações a outros jogos ou personagens icônicos de Shadowrun são deliciosas para quem curte o cenário. O primeiro runner que você encontra é o personagem principal do jogo Shadowrun de SNES. E ainda melhor: ele está dormindo dentro de uma gaveta de necrotério, uma citação ao início do jogo clássico.

Durante o decorrer do jogo, outros personagens icônicos vão aparecer. Dodger e Harlequin em particular me fizeram ter um treco, depois outro treco, depois mais trecos ainda.


Exceto pelo fato do poder de fogo deles ter sido reduzido de forma sem sentido, o que é bem inconveniente. Se você vai me deixar ter na party um elfo do quarto mundo com milhares de anos de idade, ou um cara que é reconhecido como um dos melhores tecnautas(deckers) de Seattle e além, por favor, deixe o jogo ficar desequilibrado, mas mantenha o realismo disso. E o Dodger, além de estar com um ícone loiro (o cabelo dele é branco, aliás, o ícone foge total da descrição dele, a ausência do mohawk branco sendo só um detalhe disso - e da capa do Shadowrun original), não tem nenhuma fala: quando a principal marca do personagem é seu jeito de falar, isso é para lá de triste. (são meus dois personagenms preferidos no universo de SR inteiro, eu fiquei muito muito muito feliz de ter eles lá, mas nem tudo são flores). Pelo menos o Harlequin tem com certeza as falas mais fodas do jogo, merecidamente.

A movimentação do jogo dá muito a sensação de mapa de miniatura. Não só pelo movimento dos turnos em si, mas porque os prédios, os objetos e o desenho do chão tem a estrutura daqueles tiles bacanas que a gente usa quando quer fazer bonito na mesa de jogo.

O cenário não te deixa tão solto quanto eu gostaria. Nenhum problema com a linearidade, mas em alguns casos, não importava que opção você seguisse, as reações não mudavam, ou você podia voltar atrás e testar todas as formas de falar com alguém.



Forma geral, o jogo é muito empolgante. As possibilidades de construção do personagem são muito amplas, e suas habilidades mudam suas interações com o cenário. Você pode ser xamã, mago ou adepto, em uma linha mais mística, sendo o xamã o cara que lida com os espíritos, o mago quem usa magia arcana/hermética, e o adepto é o cara que usa magia para bater nos outros a lá street fighter, ou samurai urbano, decker e rigger, em um aspecto mais tecnológico. O samurai urbano é o homem de armas do cenário, o decker é quem se enfia na matriz, e rigger é a pessoinha com os drones. E não está satisfeito com esses arquétipos? Comece do zero e misture. Você pode ser humano, elfo, anão, orc ou troll. Ser menino ou menina não faz diferença além da visual. Seu personagem vai ganhando pontos de karma para gastar na evolução, e com o tempo você vai juntando dinheiro das shadowruns que faz e consegue ir juntando um equipamento legal.

Rigger é sempre minha escolha óbvia. Mas como era a primeira vez que ia jogar, usei o arquétipo inicial do samurai urbano e lá pelo meio do jogo virei xamã para testar as funcionalidades de magia.

A campanha gira em torno de Seattle, o cenário base de SR, em 2054 (confirmar data), quando você e chamado para vingar a morte de um antigo camarada - e receber uma grana por isso. As coisas não são tão simples assim, e entre seu envolvimento com outras missões para ganhar uns trocados e seu envolvimento com o submundo e as amizades que vai desenvolvendo (ou não), você se vê diante de um assassino serial. Um assassino serial que é o menor dos seus problemas, eu te garanto.

Eu recomendo muito o jogo, tanto para quem gosta de Shadowrun já, que vai se divertir extra com os acontecimentos, facções, políticagens e personagens citados (embora ele não respeite 100% o cânon em relação a esses personagens), quanto para quem quer entender o cenário a partir de zero conhecimentos. Sinceridade, eu recomendo muito para quem quer conhecer Shadowrun que jogue, porque vai ser um bom começo. Uma visita orientada, digamos.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Red Dead Redemption

Eu fiquei alguns dias sem acesso ao computador. Poderia fazer toda uma fábula moral aqui sobre como é bonito ver o mundo lá fora e aproveitar a vida sem acesso a internet. Ou posso não mentir e assumir que sentei na frente do PS3 e usei a pilha de jogos que estavam esperando eu sentar e jogar para passar o tempo.

Na verdade, terminei passando meu tempo todo com um único jogo. Red Dead Redemption. Dizer que Red Dead é GTA no velho oeste não é justo. Sim, ele usa a engine do GTA. Mas em primeiro lugar, você pode ser um dos "caras bons" (em um padrão bang bang de cara bom). O jogo não favorece muito se você escolher como caminho não ter honra: as pessoas atiram em você na rua, se você fizer o tipo de coisa que seria usual em GTA.

Eu diria que Red Dead é quase um jogo de horror. Boa parte das missões são tétricas. Algumas cenas são de arrepiar a nuca. Foi feita uma pesquisa muito boa sobre a época do jogo, mas foi uma pesquisa que se referenciou nos aspectos mais sombrios. Com canibais escondidos nas montanhas, altas taxas de suicídio, assassinatos cruéis, gente maluca cometendo crimes, ladrões de túmulos e corrupção.

Nunca espere o melhor: sempre espere que as coisas vão piorar. Sério. Tou até agora esperando a "redemption" do título. (sim, eu leio spoilers, sim, eu já vi outra pessoa jogando, não isso não tira a graça porque o jogo é MUITO rico em detalhes).  

Acho bacana o mundo aberto, as side quests e missões aleatórias, e como você pode decidir que hoje vai brincar de ser caçador ou gastar horas caçando bandidos, e fazer devagarzinho as missões que jogam a história para frente. Ficar distraído com cenários, os pequenos mistérios e o cuidado que eles tiveram em desenhar mesmo coisas que não tem conexão nenhuma com a história e que só estão lá para enriquecer o visual.

E o personagem principal é muito cativante. Merecia livro, sabe. Dá para jogar como quem assiste um filme ou lê um livro, ficando fascinado por personagens e pela história.

Teria algumas críticas aqui e ali, mas forma geral, não estou afim. Os pontos positivos superam.

E é isso. Agora vou sair da frente do pc e voltar para o jogo...




domingo, 5 de janeiro de 2014

Sobre ser gamer





Eu achava que não era gamer. Ai um dia meu companheiro, que é um cara muito preza, e meu parceiro de nerdices faz tanto tempo que até perco a conta, me disse algo que pode parecer idiota, mas foi importantíssimo: o que importa não é o quanto é difícil: o que importa é se divertir. E que a maioria das pessoas que jogam não jogam tão bem assim. Elas só não assumem isso. 

Eu fiquei pasma olhando para a tela, para o controle do PS3 na minha mão, e pensando em como eu podia ter comprado uma ideia tão babaca - de que eu era menos gamer só porque sou RUIM de verdade jogando. (porque essa é uma mentira que repetem para a gente até a gente acreditar - especialmente quando se é mulher).

E eu parei de encanar e comecei a aproveitar o passeio.

De repente, no meu currículo nerd, eu passei a incluir que sim, sou gamer. Nunca fechei o Sonic do meu Master System, e não tenho tempo para jogar um décimo do que eu gostaria. Mas passo horas discutindo as narrativas de jogos (e sim, eu escolho meus jogos pela narrativa, e não, isso não torna esses jogos melhores ou piores, só os torna os jogos que eu gosto). Não consigo achievements legais no Steam (dois anos de conta e ainda no level 3). Mas eu consigo acertar o smoker toda vez que ele me pega no Left4Dead, e passei tantas madrugadas jogando que uma hora eu comecei a acertar mais os zumbis do que meus amigos, e fora do mundo virtual fazem piadas sobre como todo smoker em cem quilômetros vai atacar meu char porque eu sou uma chaminé de tabaco são uma constante. E joguei tantas horas de Enduro que isso devia ter me rendido um bônus na hora de tirar carteira de motorista (oi Luana!). E eu posso discutir detalhes obscuros de games que acho interessantes e te dar uma aula sobre a Poison, porque bom, ela é a Poison.

Acima de tudo, eu percebi que existe também uma questão de acessibilidade.

Eu tenho disgrafia. E o que isso significa, além de eu ter uma letra feia do inferno e escrever tão devagar que irrita as pessoas (e que sinceramente me impede de ter um aproveitamento real do ato de escrever se eu não tiver um teclado), é que por "dificuldade de integração visual-motora" você pode entender que fazer com que as minhas mãos obedeçam o que meu cérebro diz que eu deveria fazer, seja um head shot claro na tela ou me localizar em um mapa, é mais difícil do que para quem não tem essa dificuldade.

Então, o modo easy é mais difícil para mim do que para você, cara pálida, que tem os músculos da mão e o cérebro trabalhando em sintonia. O meu modo de jogo é quase sempre um nível mais difícil do que está escrito na tela, porque eu tenho um desafio extra: lidar com o fato de que a minha coordenação motora está lutando contra mim (exceto jogos que não exigem esse tipo de coordenação, como RPGs de combate por turno, que eu jogo numa boa).

Claro que eu sou tão cagada que adoro jogo de tiro em primeira pessoa, onde essa dificuldade é mais perceptível. O que me leva ao meu passado com um lança chamas em Return to Castle Wolfenstein (quem precisa de mira? eu vou tacar fogo em metade do cenário e foda-se =^_^= ). 

Não existe uma grande preocupação dos games, especialmente os mais mainstream, de ser acessível. Minha disgrafia é só um detalhe em um universo de outras dificuldades muito maiores que as pessoas enfrentam e que nem por isso deveriam impedir que elas se divirtam com jogos ou se identifiquem como jogadores.Mas de variantes de daltonismo a surdez, a falta de acessibilidade dos jogos é algo invisível para quem não passa por isso.

E eu mesma só me dei conta de que minha "inabilidade" na verdade é um reflexo da minha dificuldade motora muito recentemente. Afinal, a culpa de ser ruim jogando era minha e só minha...

O fato é que mesmo continuando difícil, eu passei a me divertir muito mais quando parei de me culpar e assumi que ok, faço o melhor possível com o pouco tempo que tenho para treinar e os músculos que tenho nas mãos. E por outro lado - que exercício ótimo para melhorar minha relação com a disgrafia que é jogar! É um exercício que eu faço sem perceber - o que nos leva ao potencial terapêutico e pedagógico dos games, que eu vou discutir com mais atenção outro dia. Estou de férias, afinal.

Eu escuto muita gente dizendo que não gosta de rótulos e que mimimi. Eu gosto de identidades, porque em um mundo onde tudo é feito para obliterar sua individualidade, especialmente uma individualidade que não se adequa ao que todo mundo faz igualzinho, esses títulos são pontos de apoio que ajudam a gente se se impor. Nomear nossas identidades é um exercício de auto-afirmação e uma forma de expor ao mundo que existimos.

Quando eu digo que sou gamer, eu crio um elo com aqueles meus alunos que descobrem que podem discutir mods de Minecraft comigo - o que me faz um adulto muito mais confiável e ajuda barbaramente nossa relação. Quando digo que sim, sou mulher e gamer, eu transformo isso em um ato político e de afirmação de gênero.

Existe uma linha muito tênue entre "eu não gosto de rótulos somos todos humanos" e a negação de identidades dissonantes. Então, sim, eu assumi também esse rótulo (assim como assumi o rótulo de nerd) porque vivo em um mundo onde antes de ser lida como humana, sou lida como mulher, sou lida como branca (mesmo não sendo), sou lida como nerd, sou lida como queer, sou lida como N coisas.

E os games estão ai. Expondo ou colaborando com as construções sociais.

Então sim, eu sou gamer. E tenho orgulho disso.



foto de poser querendo pagar de gatinha 
dizendo que joga. 

(beijo prozinimigo,
tirei a foto porque tava 
me achando  poderosa
mesmo com o headphone novo.)